Avatar

MEU NOME É TRABALHO

Segunda, 18 de Fevereiro de 2008
Durante as minhas palestras eu costumo perguntar aos participantes se eles lêem a bíblia com freqüência. A maioria afirma quem sim. Então, para testar a eficácia da leitura alheia eu lanço a segunda questão: o que está escrito no Livro do Genesis, capítulo 3, versículos de 16 a 20? Obviamente, ninguém se lembra e embora eu o faça de maneira proposital e descontraída, o conteúdo dessa pequena passagem bíblica requer uma análise profunda seguida de uma reflexão ainda maior.

Caso não se lembre ou não tenha esse costume, tomei a liberdade de transcrevê-la para refletirmos um pouco sobre o significado: "E Deus disse à mulher: multiplicarei os teus trabalhos e teus partos. Darás à luz com dor aos filhos, e estarás sob o poder do marido, e ele te dominará. E disse a Adão: Porque destes ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que te tinha ordenado que não comesses, a terra será maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tomado; por que tu és pó, e em pó te hás de tornar. E Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes."

Embora se trate de uma linguagem simbólica, acredito que um universo muito limitado de pessoas faz idéia de como essa afirmativa bíblica influenciou a evolução humana nos últimos dois mil anos, no âmbito pessoal e profissional. Como foi escrito anteriormente, a reação de Lutero à associação do trabalho ao castigo, na metade do primeiro milênio, quebrou parcialmente a conotação distorcida dos fatos e a interpretação histórica dos acontecimentos, elevando o conceito do trabalho para um nível mais aceitável no Ocidente, porém a influência do pensamento original ainda mostra sinais de força em pleno século 21.

Durante milênios as guerras também contribuíram para o pensamento negativo a respeito do trabalho. Quando os exércitos inimigos eram quase dizimados na sua totalidade, os soldados remanescentes eram escravizados e obrigados a trabalhar como castigo por seu sinal de fraqueza. Quando o escravo não queria fazer o que o novo patrão exigia, o senhor o mandava tripaliare. Por isso a origem da palavra trabalho vem do latim tripaliare, o mesmo que torturar, que por sua vez origina-se de tripalium, antigo instrumento de tortura. E aqui entre nós, de vez em quando você não considera o trabalho uma tortura?

Quando eu era pequeno ouvia minha mãe repetir o tempo todo pelos cantos da casa: - Meu Deus, mas que castigo! O que foi que eu fiz para merecer tudo isso? Naturalmente, ela não se referia apenas ao trabalho, mas a uma condição de vida desfavorável e uma coisa era conseqüência da outra. Eu devo ter contribuído bastante nesse sentido, pois, diga-se de passagem, na época eu era uma peste de marca maior e muitos dos seus cabelos brancos se devem ao meu comportamento, típico de menino peralta. Essa é velha, hein!

As adversidades foram de grande valia durante os anos seguintes. Leva tempo para a gente se tornar gente e o que conta mesmo é o tempo presente, mas ainda hoje nos lembramos daquele tempo com um tempo de grande aprendizado. O fato é que o trabalho, quando não exercido dentro da sua vocação original, tende a se tornar um fardo pesado para muitas pessoas. Por mais que elas tentem inverter o raciocínio para se adaptar a uma determinada profissão, função ou atividade, por questão de sobrevivência pura e simples, a natureza humana custa a aceitar um papel diferente e, dessa forma, o conflito interior se instala.

Em outras palavras, a pessoa está ali porque não dispõe de alternativa menos dolorosa e acaba utilizando a experiência atual de trabalho como trampolim enquanto uma nova oportunidade não chega. Particularmente, não vejo nenhum problema nisso, comum à maioria das pessoas. O problema está no comportamento adotado nesse chamado período de transição.

Caso não acredite no que digo, olhe ao seu redor - em cada ambiente de trabalho que você conhece, em cada loja que você entra, em cada restaurante que você come, em cada supermercado que você compra ou em cada repartição pública que você recorre - a quantidade de profissionais que está ali simplesmente para marcar presença, sem a mínima vontade de ser agradável e educada por um instante apenas, ainda que para isso seja necessário fingir um pouco, pelo menos na presença dos clientes.

A máxima do trabalho continua o máximo em qualquer lugar do mundo: "enquanto você não faz o que gosta esforce-se para gostar do que faz", caso contrário, sua vida será um verdadeiro suplício. Imagine-se no lugar do patrão, do empreendedor ou do empresário que você tanto quer ser tendo que administrar a insatisfação alheia e a má vontade dos colaboradores. Um profissional é contratado para defender os interesses da empresa e ainda que ele odeie o trabalho, os clientes nada têm a ver com isso.

Quantas vezes você já escutou a famigerada expressão "meu nome é trabalho"? No meu caso ouvi centenas de vezes, em diferentes empresas, algumas por hipocrisia, outras por conveniência ou gozação e muitas outras porque realmente encontrei pessoas movidas a trabalho. Essa última classe, respeitadas as devidas proporções, é admirável. Imagino fazer parte dela, com muito discernimento, pois há uma distinção enorme entre profissionais admiráveis e alienados capazes de levar o colchão para dormir na empresa e não perder o horário do dia seguinte.

O trabalho realmente dignifica o homem. Isso é fato consumado, porém divertir-se trabalhando é um desafio a ser superado. Dedicar-se com afinco e gostar do trabalho, independentemente de qual seja, é um desafio maior ainda. Coisas boas vêm para aqueles que continuam trabalhando fervorosamente enquanto esperam por uma situação mais confortável e alinhada com o seu propósito de vida.

Quando você conhecer a sua verdadeira natureza e compreender o seu verdadeiro eu, o trabalho se tornará um instrumento de paz e crescimento interior, nunca de castigo ou de tortura. Antes de perguntar "o que eu vou ganhar com isso?" pergunte "como eu posso ajudar?" e as transformações positivas serão inevitáveis.

Por fim, as palavras do grande escritor libanês Khalil Gibran, autor de O Profeta, encerram a nossa lição de hoje: "Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição e a labuta uma infelicidade. Mas eu vos digo que, quando trabalhais, cumpris uma parte do sonho mais profundo da terra que vos foi designada quando o sonho nasceu; e mantendo vosso trabalho, em verdade estais mantendo a vida; e amar a vida através do trabalho é manter-se íntimo do maior segredo da vida; e todo o trabalho é vazio, a não ser que haja amor; e quando trabalhais com amor, vos ligais a vós mesmos, e aos outros, e a Deus". Pense nisso e seja feliz!

Avatar

QUAL É A SUA MISSÃO?

Segunda, 28 de Janeiro de 2008
É impossível acreditar que o ser humano seja fruto do acaso ou que alguns nasceram para sofrer e outros para ser felizes. Esse pensamento é típico da Idade Média, mais ou menos até o século XIV, quando algumas seitas rebeldes e contrárias à posição da Igreja Católica, começaram a quebrar a premissa bíblica do castigo associado ao trabalho e, embora entendessem o trabalho como uma tarefa "penosa e humilhante", o mesmo devia ser procurado como penitência para o "orgulho da carne".

Durante o período do Renascimento, quando o homem deixou de ser um animal teórico para se tornar um sujeito ativo, constituinte e criador do mundo, as razões para trabalhar passaram a estar no próprio trabalho e não fora dele, por gosto pessoal e afinidade. Dessa forma, o trabalho já não recaía somente sobre os escravos e, portanto, era uma questão de opção ou aceitação, ou até mesmo de predestinação, também para os homens livres.

Matinho Lutero, líder da Reforma Protestante, foi quem desassociou esse conceito equivocado do trabalho ligado ao castigo, à tortura e à predestinação do ser humano. Ele entendeu o trabalho como a base e a chave da vida, portanto, a profissão passou a resultar de uma vocação, sendo o trabalho o caminho religioso para a salvação. Assim, o trabalho passou a ser entendido como uma virtude. Aliás, segundo Max Weber, foi Lutero quem desenvolveu o conceito de vocação - no sentido de uma tarefa de vida, de um campo definido a trabalhar - ao longo da primeira década de sua atividade como reformador.

E o que tudo isso tem a ver com você? Há um bocado de gente que se diz feliz fazendo coisas muito distantes da sua real natureza. Pessoas que sorriem durante o dia e choram durante a noite ao lembrar que, no dia seguinte, devem voltar a fazer algo detestável e sem sentido, pessoas cuja segunda-feira é um martírio e sexta-feira é pura alegria.

Durante minhas palestras costumo brincar que se alguém levanta na segunda-feira pela manhã, indignado e já pensando na sexta, possivelmente está no lugar errado. Alguns me olham desconfiados, outros indignados, porém a maioria começa a refletir sobre a sua real situação e volta para casa cabisbaixa, pensativa e disposta a mudar essa realidade. O problema é que no dia seguinte você estará no mesmo lugar, convivendo com as mesmas caras, o mesmo chefe e os mesmos objetivos, a menos que você comece a reavaliar profundamente suas habilidades, características e virtudes que o levarão a produzir mudanças significativas no modo de pensar e agir. E isso poderá ocorrer no mesmo local onde você se encontra, sem necessariamente ter que mudar de emprego ou de profissão.

Gosto muito do Emerson, pensador americano e profundo conhecedor da alma humana, quando diz: "Todo homem tem sua própria vocação. O talento é a vocação. Há uma direção em que todo o espaço está aberto para ele. Ele tem faculdades que silenciosamente o atraem naquela direção em um esforço sem fim. Ele é como um navio em um rio; obstáculos vêm em sua direção de todos os lados, exceto um; daquele lado todos os obstáculos são retirados e ele desliza serenamente sobre um canal que se aprofunda, até um mar sem limites."

Talvez você esteja se perguntando, todos os dias, quando chega ao local de trabalho ou depois de uma discussão acalorada com o chefe: o que eu estou fazendo aqui? Se isto for verdade, comece a traçar um plano definitivo para sair do marasmo e dar uma guinada importante na vida, aquela que vai lhe proporcionar uma existência digna, rica e em consonância com os seus valores e virtudes.

Qual é o meu lugar no mundo? Faço essa pergunta todos os dias, quando levanto e quando me deito, para não perder de vista a minha missão de "semear conhecimento e gerar prosperidade para o maior número de pessoas possível, por meio de bons exemplos, disciplina, otimismo e consideração pelo próximo."

Se você ainda não encontrou a verdadeira vocação, não se desespere, continue perseguindo a felicidade nas pequenas coisas e lute o tempo todo contra aquela voz interior pessimista que tenta dizimar suas esperanças de encontrar a profissão ideal e fazer do mundo um ambiente melhor.

As palavras de Robert Wong, autor de O Sucesso está no Equilíbrio, são muito apropriadas nesse sentido: todas as pessoas começam com um emprego, depois adotam uma profissão, em seguida perseguem uma carreira, com o tempo encontram a verdadeira vocação e, por fim, assumem uma missão definitiva que os levará a uma vida plena de realizações. Encontrar a missão é uma seqüência de perdas e ganhos, erros e acertos, um processo de aprendizado constante.

Você possui características singulares e virtudes que outras pessoas nem imaginam, cada qual com seu talento ou uma habilidade inconfundível. E, além do mais, existe um mundo aberto a qualquer iniciativa que agregue valor à vida das pessoas, não importa se você é médico, professor, advogado, enfermeiro ou gari. O importante é que você acrescente amor, paixão e determinação em todas as suas ações.

Como lembra Joseph Campbell, autor de O Poder do Mito: "A vida é uma grande escada corporativa. Depressão é quando você chega ao final e descobre que ela está encostada na parede errada." Depois de 70 ou 80 anos mal vividos, sobra pouco tempo para o arrependimento e não é fácil dar a volta por cima. O que você vai fazer com essa idade, ao olhar para trás e pensar que a vida poderia ter sido diferente? Suicidar-se? Portanto, sempre é tempo de retomar o caminho e cultivar exemplos que deixarão seus filhos orgulhosos e comprometidos com o bem-estar da humanidade. O que você vai ser quando crescer? Como você gostaria de ser lembrado daqui a 30 ou 40 anos?

Seja íntegro, disciplinado, cultive o dom do relacionamento saudável, comprometa-se a crescer e aprender todos os dias da sua vida e, mais importante ainda, não perca de vista seus objetivos.

Pense nisso e seja feliz!

Avatar

SERÁ QUE EU JÁ ALCANCEI O SUCESSO NA MINHA CARREIRA?

Terça, 11 de Setembro de 2007
Não lembro se já citei esse cara como exemplo, mas vale a pena relembrar.

Certo dia foi lá em casa um moço responsável pela montagem e instalação de um móvel de cozinha. O rapaz trabalhou corretamente, instalou sem complicações e ainda me quebrou um galhão fazendo uns furos na parede do banheiro. Ótimo profissional.

Na despedida, em conversa com ele, o moço me informou que trabalhava há alguns anos naquele ramo, e que não pretendia mudar de trabalho. Perguntei então se ele nunca quis fazer um curso superior. Me impressionei quando ele relatou que era formado em história. Disse ainda que já ensinou em várias escolas, mas se realizou profissionalmente quando se especializou em montagem de móveis. Não troca esse emprego por nada no mundo.

De primeiro momento, não entendi como uma pessoa poderia cometer tamanha façanha.Carreira Deixar a carreira acadêmica, jogar fora o diploma de nível superior, desperdiçar a chance de estudar em faculdade pública, disputada por muitos, tudo isso para viver parafusando e encaixando partes de um móvel. Depois, lembrando do brilho nos olhos do cara quando viu tudo montadinho, funcionando perfeitamente, reconheci que ele fez uma decisão mais do que certa para sua vida.

Na minha opinião, o moço do exemplo conseguiu algo muito procurado pelas pessoas, independente do ramo em que atuam: o sucesso profissional. Após procurar em outros empregos, o rapaz encontrou um que lhe rende financeiramente e agrada como profissão. Pode não parecer muito para a maioria, mas para ele é o emprego dos sonhos.

Quantas pessoas você conhece que dariam tudo para mudar de profissão? Eu mesmo já vi histórias de gente que alcançou posto bem sucedido, ganhando muito bem, mas que seria muito feliz se estivesse fazendo algo extremamente diferente. Você se encaixa nos que procuram a felicidade ou tem mais a ver com o montador de móveis? Eu, sinceramente, espero que você esteja enquadrado na segunda opção. É ruim demais trabalhar e trabalhar, conquistar e conquistar, mas ainda restar um vazio interno, como se tudo não tivesse valido de nada.

Vamos, então, buscar o que mais nos interessa, o que mais nos atrai. Passamos metade da vida trabalhando, assim devemos, para nosso próprio bem, exercer a profissão que mais nos agrade. Dessa forma, transformamos a tortura de trabalho no prazer no emprego dos sonhos. Quem sabe você não se realiza montando móveis?

Boa sorte e faço votos que encontre. Eu também estou a procura.

Colaborador: Gabriel Galvão