Eugen Pfister
Quinta, 2 de Outubro de 2008
Os gurus da administração fazem o possível e o impossível para ocultar o
lado irracional das relações entre lideres e liderados. Admitir o fato
complicaria a racionalidade mecânica das suas teorias sobre liderança,
negociação, motivação e congêneres, sempre pautadas em promessas do tipo “faça
isso e você conseguirá aquilo”.
Nas inúmeras e criativas metáforas sobre organizações que cunharam (até
inventaram uma tal de organização espaguete)1, nunca lhes ocorreu a
possibilidade das organizações terem seus dias de Jurassic Park.

Vejamos. Segundo os paleontólogos, os dinossauros desaparecerem da face da terra
há 64-66 milhões de anos. Pairam controvérsias e dúvidas sobre as causas da
extinção massiva, mas como ninguém até o presente momento reportou a alguma
autoridade ter visto um Alossauro Polar andando pela Avenida Paulista, assume-se
que os bichanos estão mortinhos da Silva.
Bom, essa história de ninguém viu vale mais para cientistas e pessoas sensatas,
pois há quem suspeite que eles e o Elvis ainda vivam. Por favor, contenham a
vontade de rir ou zombar, pois, os crédulos têm razões que a própria razão
desconhece. Tudo depende de como conceituamos o que é “viver” ou “sobreviver”.
Elvis continua um ícone e seus discos vendem milhões até os dias atuais. “Tá
bom! Essa é fácil” - dirão os céticos: “duro vai ser explicar a história dos
dinossauros”. Espero não desapontar ninguém, mas defender a tese vai ser uma
barbada.
Sucede que o grande lagarto sobrevive onde menos esperamos encontrá-lo: em nós!
Mais especificamente em nossos cérebros, comportamentos e sentimentos. “Imagine
o cérebro humano como um sanduíche evolutivo, um córtex (centro do pensamento e
da lógica) empilhado no topo de um cérebro de dinossauros (...) com uma camada a
que chamamos de sistema límbico no meio”2. Essa camada surgiu a partir da
emergência dos mamíferos mais antigos com a função de contribuir para a
sobrevivência da espécie.
Sim, senhores, somos dinossauros de terno e gravata, diplomados, com CPF, RG,
cartão de crédito e outras quinquilharias que acreditamos provar nosso
progresso. Mas o Dino está lá na moita. Na dúvida, tente ultrapassar um
motorista que trafega na pista da esquerda a 40 km por hora, diga para o seu
chefe que ele é incompetente, questione a moral do seu subordinado, sonegue-lhe
os direitos ou méritos e você viverá fortes emoções.
A questão é que fomos socializados a duras penas e, apesar dos séculos de
esforço civilizatório, alguns preferem ir direto ao ponto sobre “quem manda
neste pedaço”. Eu, por exemplo, sou assim quando o assunto é o controle da TV.
A lei da selva está claramente presente na conduta dos chefes autoritários, dos
subordinados rebeldes, dos manda chuvas da vida e dos flanelinhas. A técnica é
intimidar o interlocutor física, psicológica ou moralmente e assim impor a
própria vontade, interesses, caprichos.
Normalmente, quando os intimidados decidem brincar de Jurásic Park : (a) contra
atacam o oponente com igual ou superior violência; (b) enfiam o rabo embaixo da
perna e fogem da raia; ou (c) ficam inermes, paralisados, sem saber o que fazer
diante da truculência de que são vitimas. Atacar, fugir ou ficar imóvel é o
modus operandi clássico dos dinos de antanho e de hoje.
O problema é que as estratégias ofensivas, defensivas ou escapistas não
contribuem para atingir as metas ou satisfazer os interesses pessoais, grupais,
organizacionais. Ao contrário, No lugar de resolver problemas e conflitos, elas
jogam gasolina na fogueira.
Evolução não significa, necessariamente, superar estágios primitivos prévios.
Acreditamos na hereditariedade, na transmissão genética das características
biológicas. Acreditamos no inconsciente coletivo descrito por Carl Gustav Jung
como uma espécie de memória atávica da humanidade. Só não enxergamos que
diferentes estágios evolutivos sobrevivem e se manifestam até hoje.
Os jogos de poder numa organização são, na essência, primitivos, ainda que os
jogadores se esforcem para parecerem nobres, civilizados, altruístas.
Os jogos mais populares são:
- Eu sou o Bwana, brincadeira para reafirmar quem está no comando.
- Você sabe com quem está falando? (idem)
- Manda quem pode, obedece quem tem juízo, jogo do recado preventivo.
- É nadar ou morrer, velha lei da selva.
- Cenoura ou o chicote?, a tradicional estratégia de manipular os baixos
apetites
- Siga o Chefe, ou seja, não questione, obedeça!
- Agora te peguei, Seu F.D.P., superiores que adoram flagrar os subordinados
cometendo erros.
- Sexo e vantagens profissionais: assédio moral e sexual.
Portanto, fique atento e esperto. Tempere com doses cavalares de realismo a
visão cor de rosa dos gurus organizacionais. Um dos deveres de um gerente é
reconhecer e lidar com a realidade; depois, pode transformá-la. Procure
inspiração no poeta e dramaturgo Terêncio (82 a.C. – 35 a.C) que disse “nada
do que é humano me é estranho”.
Antes de tentar domar os outros, dome a si mesmo, gerenciando os próprios
impulsos jurássicos. Aliás, prometo aos amigos e conhecidos que me esforçarei
para seguir o próprio conselho.
1. Lars Kolind, CEO da dinamarquesa Oticon criou nos anos 80 o conceito de
organização spaghetti.
2. Albert J. Bernstein & Sydney C. Rozen, Gerentes Inteligentes, Reações
Irracionais, 1991, Makon Books, São Paulo.
|
Mateus Paulini
Segunda, 18 de Fevereiro de 2008
Todas as empresas devem analisar meticulosamente como são organizados seus recursos produtivos, e isso pode ser amplamente utilizado em empresas de bens de produção e serviços. Sim empresas que prestam unicamente serviço também produzem, neste caso seu produto é intangível, mas nem por isso é menos percebido pelo mercado consumidor, como exemplo pode-se citar uma faculdade, é uma prestadora de serviços que deve possuir recursos para atender aos clientes (alunos). Nesse caso os recursos são a mão-de-obra, ou seja, os professores e a estrutura oferecida para execução da prestação do serviço.
Esta análise pode ser aplicada para qualquer empresa de qualquer segmento de atuação. Mas princípio é necessário estabelecer sobre a definição da estratégia produtiva que será adotada, ou seja, será produção puxada ou empurrada? Quais níveis de estoques necessários? Qual necessidade de mão-de-obra necessária? A empresa possui a estrutura para realização do que é almejado?
Relativo à estratégia produtiva existem dois pontos externos que devem ser analisados: o mercado em relação à concorrência e a tendência de consumo.
Análise da concorrência permite conhecimento prévio do mercado, e a possibilidade de participação da empresa. A verificação de tendência de consumo permitirá identificar em qual estágio do ciclo de vida o produto ou serviço, desta forma é possível tomar medidas necessárias para facilitar sua entrada. Concomitantemente poderá ser analisado o modelo das 5 forças de Porter, para entender melhor sobre o mercado em questão.
Aplicando o Modelo das 5 forças segundo Porter, pode-se constar a possibilidade de entrada produto substituto, ou poucos clientes participantes do mercados, prejudicando assim a entrada e participação no mercado. Mas existem várias possibilidades que podem ser interpretadas através da aplicação deste importante modelo. Por isso deve ser cuidadosamente analisado.
Realizada a análise externa ou análise ambiental, o passo seguinte é a análise interna da organização. Neste ponto são verificadas quais as restrições e capacidade de recursos para produção. Esta estrutura pode ser subdividida em recursos disponíveis para operações, capacidade para realização das operações e os processos necessários para realização da produção dos produtos ou serviços. Em suma, os subitens citados refletem a necessidade de preparação estratégica, no qual destaco e assevero a importância da matéria prima e mão-de-obra.
Verificar as matérias prima quanto a sua disponibilidade de fornecedores, se há existência de algum impedimento mercadológico, ou seja, contratos firmados dos fornecedores com concorrentes exigindo exclusividade de fornecimento, ou mesmo alguma questão legal que impede o recebimento das matérias primas.
Outra grande dificuldade é a alocação de mão-de-obra qualificada, este é o ponto crucial para a realização produtiva com eficiência, pois o aumento da automatização mecânica nos processos produtivos, são necessários profissionais com as qualificações exigidas para manuseio destes maquinários.
Por fim, após a realização da análise interna da organização e possuindo as informações é possível analisar e tomar decisões pertinentes quanto as questões estruturais e infra-estruturais da organização para atender as necessidades de produção. Com esta análise sugerida, haverá a certeza de que a empresa terá plena capacidade em relação aos recursos produtivos.
|
Marcelo Miyashita
Quinta, 31 de Janeiro de 2008
Valorize clientes leais, eles estão na carteira, mas podem sumir
Outro dia, ouvi o seguinte relato do ex-aluno Luís Henrique de Mendonça Paulo: 'Entrei pela primeira vez numa loja de roupas no shopping e fiz a compra. No final, recebi um cartão de Cliente VIP (Very Important Person, ou, Pessoa Muito Importante, em português). Estranhei pois era a primeira vez que entrava lá, mas ser VIP é bom e dá aquela sensação de que você será tratado de maneira diferenciada. Então resolvi curtir a sensação. Era um belo cartão dourado metálico, imitando cartões de crédito, bem layoutado. Mas logo a moça do caixa começou a desfazer aquele momento mágico. Pediu que eu olhasse o verso do cartão e lá estavam espaços para preencher com 'selinhos', que eu ganharia a cada nova compra. Ao juntar cinco selinhos no cartão, eu teria direito a um bônus em mercadorias. Ao prestar mais atenção, percebi que em letras miúdas estava escrito que a 'promoção' era válida por um ano. Tudo piorou quando vi um número de controle no cartão: 77.854!!! Ora, ser VIP é ser exclusivo! Mas, nesse caso, ser VIP era ter de gastar mais num curto período de tempo.'
Essa história, infelizmente freqüente, ilustra a confusão de conceitos entre mecânicas promocionais e ações de marketing de relacionamento. Na verdade, o mecanismo relatado é uma operação promocional com benefício não imediato - exige repetição de compra num prazo determinado para após esta 'fidelidade' garantir um bônus, um prêmio para valorizar o cliente que se demonstrar constante dentro das regras da promoção. 
Mecânicas assim são comuns (em pizzarias, por exemplo) e o que causou sensação de desconforto foi chamá-la pretensiosamente de 'Cartão Cliente VIP'. Claro, essa operação não tem nada de VIP. Primeiro, porque se todo cliente for VIP não há diferenciação que valorize os realmente importantes - aqueles que escolheram comprar, pois foram atraídos e convencidos por toda abordagem de marketing da empresa, não só pelo preço e promoções; e, segundo, porque não se busca com os VIP's só oferecer descontos, o objetivo é fornecer vantagens alinhadas aos mesmos motivos que os tornaram leais.
O ponto é que toda empresa tem clientes que a escolhem em função de motivos somente comerciais: esses são geradores de volume, apesar de fornecerem baixas margens. É comum empresários darem atenção exacerbada a eles. Esse é o erro: dar atenção ao grupo de clientes de demanda maior e esquecer do grupo que oferece maior rentabilidade. Toda carteira tem clientes que optam comprar por outros motivos além de preço, como serviços, atendimento, conveniência e localização. Esses podem não oferecer os maiores volumes de faturamento, mas formam os mais lucrativos. E leais, pois escolheram comprar pelo que a empresa é e fornece - e não só pelo seu preço.
É preciso dar mais atenção aos que preferiram dar mais atenção ao negócio - os VIP's da carteira. Que, é bom salientar, não se qualificam em função de uma compra. Para determiná-los é necessário estudar o histórico de relacionamento deles com a empresa - só o tempo demonstra quem é realmente valioso. Por experiência, no geral, uma companhia tem de 5% a 30% desses clientes. Mas nem sempre as empresas desenvolvem estratégias para eles. Infelizmente trabalha-se muito com o restante que oferecem baixas margens e são motivados pela negociação.
Essa é a incoerência nas estratégias junto aos clientes. Quem mais merece, porque escolheu pelo que a empresa é, e fornece melhores rentabilidades, acaba tendo menos atenção e cuidados. Com isso, a organização corre o risco de alimentar somente clientes negociantes até que esses cheguem a 100% da carteira. O que é preocupante, pois há o iminente fato de sempre aparecer concorrentes com preços melhores.
Por essas razões é necessário dar mais atenção aos verdadeiramente VIP's. São eles que ajudam a equilibrar a rentabilidade de toda operação.
Categorias:
Marketing, Clientes, Promoção, Marketing de Relacionamento, Valorizar Cliente, VIP, Cartão de Cliente, Mecânica Promocional, Operação Promocional, Marketing da Empresa,
|
Nori Lucio Jr.
Sabado, 25 de Agosto de 2007
Tão importante quanto os cuidados com a marca e com o canal de vendas da sua empresa ter uma plataforma bem articulada, com programas focados em geração de demanda é fundamental para que o "telefone toque" ou "as visitações no site aumente".
Conceitualmente todo programa de marketing focado geração de demanda deve ter 3 elementos, cujo objetivo é simplesmente estimular o público-alvo a se mobilizar de alguma forma no sentido de efetivar a compra.
1. Um estímulo, que pode ser uma promoção, oportunidade, desconto, sorteio, enfim, algo que determine que um bom negócio esteja sendo apresentado.
2. Um produto ou serviço, que esteja associado à identidade e a promessa da sua empresa para que os clientes identifiquem quem está mandando versus o que está sendo ofertado.
3. Um "chamado" explícito, claro, compreensivo. Aqueles do tipo: - Ligue agora, válido até o fim do estoque, visite o site, os primeiros que ligarem ganham um brinde especial, só até sábado, etc.
Existem alguns erros conceituais básicos na construção de programas de geração de demanda que acabam por comprometer a eficiência e consequentemente os resultados nas vendas associadas ao programa. O principal erro acontece quando se confunde a mídia (ou veículo) com o conteúdo.

Exemplos:
. Escolha da mídia ou veículo antes de definir o conteúdo. Ouve-se muito freqüentemente alguns profissionais falarem de boca cheia, com assertividade:
"- Manda aí um e-mail marketing e pronto!!!".
É como se no passado, por exemplo, o correio tradicional pudesse sanar seus problemas de vendas através de seu sistema de envio de cartas.
. Negligência ou preguiça ao escolher o estímulo.Outra frase interessante que vem sempre do profissional que montou a oferta sem nenhum critério e sem conhecer seu público-alvo.
"- 20.000 pessoas abriram o e-mail marketing, mas ninguém ligou. Esse e-mail marketing não funciona".
Pode ser que ele, o profissional, esteja fazendo uma oferta de frango com um preço incrível e ainda leva grátis uma farofa focada em vegetarianos.
. Achar que qualquer mídia pode ser classificada como uma mídia de resposta direta. O sujeito coloca no rádio, uma propaganda:
"-Venha experimentar este delicioso chocolate que derrete na boca hummmmm, visite nosso site agora e concorra a uma bicicleta".
Chocolate delicioso que derrete na boca, pelo rádio? E o chamado é para ir para o site e concorrer a uma bicicleta? Estranha forma de estimular uma experimentação, seguida da combinação da promoção que oferece uma bicicleta como estimulo à experiência. Acho que ninguém salivaria ouvindo um chamado deste pelo rádio. Talvez os que estiverem de dieta, iriam ao site pra ganhar a bicicleta?!
Fala-se muito sobre e-mail marketing, E-commerce, CRM, ERP, programas de afinidade, marketing direto, Business Intelligence. Na moda, todos estes termos definem simplesmente o meio, ou a infra-estrutura de tecnologia de informação que na antiguidade chamava-se de CPD. As ações de geração de demanda exigem muito mais responsabilidade e competência analítica para escolher qual a "isca" que a empresa deve escolher para "pescar" determinado "peixe" em determinado "rio".
Apesar dos termos semanticamente sofisticados a relação com cliente não mudou de forma revolucionária, mas sim evolucionária. Marketing e Vendas continuam sendo uma única equação que determina oferta e demanda. Antes o relacionamento com o cliente dava-se de uma forma mais simples e pessoal, mais lenta proporcional à tecnologia disponível na época. Hoje estímulo e resposta são instantâneos!
O cliente é o mesmo só que está mais bem informado, e conseqüentemente mais exigente.
A mecânica para dissipar informação sobre qualquer tipo de oferta de qualquer tipo de produto ficou acessível a todos que tem uma boa idéia. Não precisam investir em meios caros como TV, rádio ou jornal. Através da internet por R$10,00 registram um domínio e por outros R$10,00 criam um site capaz de oferecer qualquer coisa para milhões de indivíduos, fenômeno denominado como "long tail".
Por um lado ótimo hoje vemos produtos e serviços que nunca sonhávamos que poderiam existir, por outro lado, a poluição de e-mails e spams incomodam as caixas postais abarrotadas dos usuários, agora equipados com anti-spam com filtros sofisticados comprometendo a eficiência deste meio como ferramenta para programas de geração de demanda.
É como se os clientes da suas empresas tivessem um carteiro pessoal que jogasse fora todas as correspondências que escolheram não receber.
E o conteúdo? Como articular um conteúdo que seja atraente e eficiente para o cliente?
A efetividade dos programas está DIRETAMENTE relacionada à clareza e precisão do plano de marketing e comunicação da empresa. Se os fundamentos relacionados à marca, identidade, promessa de valor, posicionamento e estratégias da empresa estiverem bem equacionados, os programas de geração de demanda certamente vão gerar bons resultados através de estímulos compreensivos e significativos para o público-alvo, que vai ligar para seu "call-center" ou visitar o seu site!
Além disso, o cliente vai também:
. Registrar-se para receber e-mail com outras promoções.
. Tornar-se membro do seu programa de afinidade.
. Interagir com a empresa quando solicitado.
. Reclamar das deficiências.
. Sugerir mudanças, propor alternativas.
A internet por enquanto é a única mídia que permite este tipo de interação. Ainda está pensando se investimentos em E-commerce é prioridade? Seu concorrente já decidiu, faz tempo!
E-commerce diferente do que muitos gestores pensam não é uma tendência. Na realidade os que pensam assim já perderam boa parte do seu mercado. Internet é um canal de vendas tão ou mais efetivo comparativamente aos canais de vendas tradicionais da empresa. A internet não respeita debates filosóficos, opiniões ou lerdeza operacional. A internet muda o comportamento de compra dos seus clientes.
Se sua empresa não evolui para renovar seu canal de vendas o cliente vai mudar de fornecedor - e sua empresa vai mudar de segmento!
Continua amanhã (publicação de segunda/última parte)....
Colaborador: Nori Lucio Jr.
|
Administrador
Quinta, 31 de Maio de 2007
No final da década de 1980, circulava entre os fãs de ficção científica a seguinte história: em uma conferência, pouco depois do lançamento de seu livro Neuromancer, o escritor americano William Gibson teria sido abordado por ninguém menos que Marshall McLuhan, que lhe disse: "Você realizou meu sonho."
Esse encontro não é citado em nenhum texto biográfico referente aos dois escritores - porque provavelmente jamais ocorreu. McLuhan morreu em 1980, três anos antes de Gibson concluir o que é até hoje considerada sua obra-prima. Mas si non è vero, è bene trovato: o livro de Gibson descrevia pela primeira vez (na literatura de ficção científica ou fora dela) a possibilidade de um mundo completamente interconectado: a comunicação universal, sem fronteiras, propiciada pelo ambiente virtual e surreal que Gibson chamou de ciberespaço - uma realidade consensual, ou, mais adequadamente, em suas próprias palavras, "uma alucinação consensual"*.
O advento do ciberespaço seria, para muitos desses fãs, uma interpretação bastante adequada do conceito mais famoso do professor canadense Marshall McLuhan: a aldeia global - precisamente o "sonho" que Gibson teria realizado ao construir o mundo de Neuromancer.
Um sonho que não era novo. Desde a publicação, em 1964, de Understanding Media, pelo menos um conhecido escritor já havia tentado dar vida ao conceito de aldeia global: Arthur C. Clarke. Conhecido mundialmente como o autor da história que deu origem ao filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, Clarke escreveu diversos livros de ficção que abordam com detalhes a idéia da comunicação instantânea universal. Mas sua contribuição mais importante à viabilização de uma futura aldeia global não se deu exatamente pela via da literatura.
A Visão de Clarke - Comunicação Limpa e Sem Obstáculos
Autor, entre outros livros, de Encontro com Rama e A Cidade e as Estrelas, Clarke é conhecido como criador de mundos fantásticos e utópicos. Contudo, o que pouca gente sabe é que este inglês radicado no Sri Lanka, além de escritor, é físico e matemático, e contribuiu ele próprio com a ciência ajudando a desenvolver o radar durante a Segunda Guerra Mundial e criando em 1945 o conceito do satélite de órbita geoestacionária, que revolucionaria as comunicações em escala global.
Talvez por isso, antes de William Gibson, nenhum outro escritor tenha se interessado tanto pela idéia de comunicação instantânea universal. Em diversos de seus livros de ficção, como Terra Imperial e 3001 - a Odisséia Final, ele descreve sociedades em que todos os habitantes do globo estão interligados constantemente, e em obras de divulgação científica, como Um Dia na Vida do Século XXI, escrito em 1986, conceitos como e-learning (educação à distância) e teleconferências utilizando realidade virtual são descritos como lugares-comuns em 2019.
É nesse livro, aliás, que Clarke deixa clara sua afinidade com as idéias de McLuhan, ao citar parte de um discurso que realizou em 1983 na Organização das Nações Unidas, no Dia Mundial das Telecomunicações:
A tão anunciada Aldeia Global já está quase conosco, mas durará apenas um breve momento na história da humanidade. Antes de percebermos que chegou, será suplantada - pela Família Global.*
A idéia de Família Global, uma extensão do conceito de McLuhan, parece evocar uma sensação de belonging, de pertencimento, a um grupo unido e fechado, que convive em harmonia e protege seus membros - uma visão de mundo coerente com o momento histórico em que Arthur C. Clarke (nascido em 1917) foi criado. Hoje, num mundo no qual, entre muitas outras noções, o conceito de família começa a ganhar contornos mais fluidos, as palavras de Clarke parecem transmitir uma mentalidade ainda ligada de modo inconsciente ao passado. Como Bruce R. Powers observa no prefácio a The Global Village - Transformations in World Life and Media in the 21st Century, "as pessoas passam suas vidas criando simulações razoáveis do que foi feito na era precedente. (...) O homem do século dezenove vivia na Renascença. Nós vivemos no século dezenove."* Depois do advento da Web e da nova economia global, essa afirmação de Powers pode estar datada, mas ainda fazia sentido na época do discurso de Clarke - assim como na época em que ele escreveu a maioria de seus livros.
Clarke vislumbra efetivamente um futuro onde o mundo se tornou uma aldeia global, mas nessa aldeia, as casas são todas limpas e assépticas. As histórias de seus livros não excluem guerras e catástrofes, mas os conflitos ocorreram no passado, e o homem soube aprender com seus erros e construir uma civilização mais avançada, sem fome e miséria, e onde a doença e a morte não foram erradicadas, mas estão praticamente sob controle. Mesmo os erros e as imperfeições são previstos e calculados. Um wishful thinking característico da ficção científica de caráter utópico, herdeira do pensamento de H.G.Wells - não por acaso um socialista científico, que acreditava que o progresso da ciência traria o bom senso às mentes dos cidadãos, e conseqüentemente a paz e o bem-estar geral a todas as sociedades humanas.
McLuhan - Totalidade com Variedade
Em nenhum momento ao longo de Understanding Media McLuhan nos dá uma definição precisa do que é a aldeia global. No prefácio, ele diz que:
Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global (itálico nosso), abolindo tempo e espaço. Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana*.
E, mais adiante:
Eletricamente contraído, o globo já não é mais do que uma aldeia*. A velocidade elétrica, aglutinando todas as funções sociais e políticas numa súbita implosão, elevou a consciência humana de responsabilidade a um grau dos mais intensos. É este fator implosivo que altera a posição do negro, do adolescente e de outros grupos. Eles já não podem ser contidos, no sentido político de associação limitada. Eles agora estão envolvidos em nossas vidas, como nós na deles - graças aos meios elétricos.
Se na primeira afirmação McLuhan alude a um "abraço global" que uniria todas as pessoas numa espécie de consciência coletiva, na segunda ele complementa essa idéia mencionando a inclusão das minorias na vida cotidiana de todos, por intermédio de meios que em seu tempo eram apenas elétricos (rádio e TV), e hoje são eletrônicos (Internet).
McLuhan e Clarke parecem concordar quanto ao abraço global, mas é no chamado "fator implosivo" que as diferenças se estabelecem - precisamente porque McLuhan não descarta as diferenças, sejam sociais, culturais ou raciais, ao contrário de Clarke, que prefere esquecê-las em detrimento de um pretenso governo mundial. Clarke não é racista (vários de seus protagonistas são negros, como os personagens de O Fim da Infância e Rama II), mas advoga a idéia de um grande direcionamento das culturas para um único vetor - o das nações mais avançadas tecnologicamente. Em seus livros, países tão distantes e diferentes entre si como Sri Lanka, África do Sul e Fiji encontram-se inteiramente colonizados pela cultura dos Estados Unidos e da Europa, a ponto de as raras manifestações culturais locais serem tratadas como superstições ou, na melhor das hipóteses, como curiosidades históricas que eventualmente podem ser dignas de registro em museus ou bancos de dados.
McLuhan vê parte desse processo (a invasão da tecnologia em todos os recantos do mundo) como inevitável, mas está bem ciente de suas armadilhas, como a alienação, a julgar pela seguinte afirmação:
Não estamos mais bem preparados para enfrentar o rádio e a televisão em nosso ambiente letrado do que o nativo de Gana em relação à escrita, que o expulsa de seu mundo tribal coletivo, acuando-o num isolamento individual. Estamos tão sonados em nosso novo mundo elétrico quanto o nativo envolvido por nossa cultura escrita e mecânica.*
A Visão de Gibson - Comunicação Global Sim, Mas Com Ruído
Alienação é uma das palavras-chave para se compreender o universo supertecnológico criado por William Gibson em suas histórias. Desde contos como Johnny Mnemonic (1981), em que o personagem-título é na verdade um misto de yuppie com ciborgue, mais preocupado em apresentar um bom desempenho nos negócios (no seu caso, transferência de dados através de um disco rígido implantado em seu cérebro) do que com as conseqüências morais ou mesmo puramente físicas de seus atos, até a recente "Bridge Trilogy" (composta pelos romances Virtual Light, Idoru e All Tomorrow's Parties), Gibson descreve uma realidade que é a epítome do pós-moderno, dentro da qual se movimenta como ninguém: o universo cyberpunk.
Embora fruto de um movimento, criado no começo da década 1980 com outros autores*, a visão de mundo cyberpunk foi melhor definida por Gibson em Neuromancer: o melhor e o pior dos mundos possíveis; o charme das tecnologias do mais alto nível convivendo numa nem sempre agradável simbiose com a sujeira punk das ferramentas obsoletas e maquinário sucateado. A reinvenção, ou, para utilizarmos um termo pós-moderno, o sampleamento de velhas técnicas para quem não tem dinheiro para pagar os confortos da sociedade futura. O mundo cyberpunk é um mundo dividido (mal) entre os muito ricos, que dispõem de acesso fácil à comunicação instantânea universal e os muito pobres, os mendigos e loucos da aldeia global, que lutam nos subterrâneos por esse acesso, criando tribos e subculturas que trocam informações entre si sem parar, fomentando guerrilhas midiáticas não muito diferentes das que vemos atualmente (vide as atividades recentes dos coletivos Luther Blissett e Wu-Ming, na Itália). É a aldeia global possível.
Quando Gibson concluiu Neuromancer, em julho de 1983, a Internet havia sido criada exatamente seis meses antes - em 1o. de janeiro, a ARPANet migrou para o protocolo TCP/IP, dando origem à rede mundial de computadores. Mas a World Wide Web, que só seria criada em 1990, não passava de mera especulação - assim como o ciberespaço vislumbrado por Gibson. Mas o fator humano já estava lá - o espírito punk de "no future", tomado de empréstimo dos ingleses e metamorfoseado para as necessidades de um possível século XXI, onde quem tem tecnologia (ou domina o seu uso, seja oficialmente, como as megacorporações, seja subterraneamente como o grupo pós-hacker dos Panther Moderns, que cria sua própria tecnologia ou sucateia a já existente) tem tudo, e quem não a possui é um pária. Ou seja, não só não há justiça social como não há futuro no futuro.
As grandes guerras podem até ter acabado no mundo de Neuromancer, mas deixaram profundas seqüelas em níveis macro e microeconômicos, e a sociedade não parece ter aprendido com os erros do passado. É uma aldeia malgré elle même, parafraseando Moliére. Mais ou menos como o mundo em que vivemos.
Gibson exerce uma função profética bastante semelhante à de McLuhan ao criar o conceito de aldeia global em Understanding Media. E, entre os escritores de ficção científica, é ele quem parece ter melhor compreendido que o McLuhan quis dizer, criando em Neuromancer um mundo praticamente todo interconectado, onde as minorias têm vez e voz (a um ponto tal que coloca talvez até mesmo em discussão a definição de minorias) e as casas dessa aldeia são regidas acima de tudo pelo paradigma da variedade. Ninguém é igual a ninguém, ou por outra: em termos de posse e utilização de tecnologias, uns são mais iguais que outros.
Conclusão: O Presente - Nem Isto Nem Aquilo
A Internet e a sua interface gráfica, a World Wide Web, estão evidentemente muito mais para os sonhos de William Gibson do que os de Arthur C. Clarke - mas o ciberespaço, a realidade consensual tal como imaginada por Gibson ainda não existe, e talvez nunca venha a existir.
A Web é a terceira margem do rio que corta a aldeia global de McLuhan. Ela ainda está apenas no começo de suas possibilidades - que já estão sendo discutidas por escritores da chamada segunda geração cyberpunk, como Neal Stephenson, em Snow Crash, e por Bruce Sterling, antigo parceiro de Gibson, que acabou se tornando o ideólogo dos cyberpunks e de uma nova geopolítica tecnológica, discutida tanto sob a forma de ficção (como em Zeitgeist, de 1999) quanto sob a chancela bastante interessante da não-ficção em seu recém-lançado Tomorrow Now - numa tradução literal para o português, O Amanhã Agora. Um amanhã cuja única certeza é que ele não será jamais aquele que imaginamos em nossos sonhos, mas que Clarke e Gibson, de maneiras bem diferentes, ajudaram a moldar. Com as bênçãos de Marshall McLuhan.
Referências Bibliográficas
BLISSETT, Luther, (2001) Guerrilha Psíquica São Paulo: Conrad Editora
CLARKE, Arthur C., (1989) Um Dia Na Vida Do Século XXI Rio De Janeiro: Nova Fronteira
CLARKE, Arthur C., (1999) 3001 - A Odisséia Final. Rio De Janeiro: Nova Fronteira
GIBSON, William, (1981) Burning Chrome New York: Ace Books
GIBSON, William, (1984) Neuromancer New York: Ace Books
MCLUHAN, Marshall, (1964) Understanding Media New York: Mc-Graw-Hill Book Company
MCLUHAN, Marshall, (1969) Os Meios De Comunicação Como Extensões Do Homem São Paulo: Cultrix
MCLUHAN, Marshall Et POWERS, Bruce R., (1989) The Global Village - Transformations In World Life And Media In The 21st Century New York: Oxford University Press .
Fábio Fernandes é mestrando em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP.
Fonte: GHREBH - http://revista.cisc.org.br
|
| |