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Peter Drucker e o futuro da administração no mundo e no Brasil

Quarta, 3 de Setembro de 2008
A ênfase central de Drucker é na realização do ser humano. Seres humanos só se realizam sendo produtivos. Organizações são importantes porque são o instrumento para que eles sejam produtivos, e a administração é "a mais importante invenção do século XXI" porque é a disciplina específica para que as organizações cumpram esse papel. Peter Drucker encaixou o homem e o que ele produz na aventura humana maior. Não produtos, não empresas, não tecnologias. Pessoas. Sempre partiu delas. Seu livro sobre a GM dos anos 40, The Concept of the Corporation (O Conceito da Corporação), é um manifesto a favor dos empregados. Já naquela época, Drucker queria que a empresa passasse a vê-los como recursos, não como custos. Sugeriu equipes autogerenciadas, entre outras coisas. A GM não topou, mas, 30 anos depois, pressionada pelos japoneses, teve de seguir suas recomendações a um custo altíssimo.

Para ver o futuro, Drucker.(2002, 72) inspirou-se na dinâmica da história:

Há um século, as pessoas ainda estavam nas fazendas arando a terra. Os artífices trabalhavam sozinhos, ou com um ou dois ajudantes. Quase ninguém trabalhava em organizações, exceto padres, militares, professores grupos muito pequenos. Mas, com o fordismo, isso acabou. Não era mais preciso ter habilidade para trabalhar. A partir daí, as pessoas só conseguiam ser produtivas pertencendo a organizações

Segundo ele Drucker(2002, 73) este movimento está levando o mundo ao:

O papel do capital na economia, hoje, está sendo desempenhado pelo conhecimento. A Revolução Industrial aplicou o conhecimento às máquinas, a revolução da produtividade de Frederick Taylor aplicou conhecimento ao trabalho e a revolução gerencial de meados do século 20 aplicou conhecimento ao conhecimento.

A continuidade desse processo é que está moldando a nova sociedade -- aplicação contínua de conhecimento novo ao que já se conhece. Novas tecnologias não vão "resolver o futuro". O que vai resolvê-lo é tornar o conhecimento produtivo de maneiras originais. Isso é 100% válido para o Brasil.

Conhecimento é portável, transferível, não tem barreiras geográficas. A globalização é uma conseqüência disso. É errado pensar que há um jeito brasileiro de administrar. É errado achar que, por sermos brasileiros, precisamos de conhecimento específico brasileiro, como se nossa produtividade tivesse uma especificidade mulata ou tropical. Como se os brasileiros fossem seres humanos diferentes. Drucker desmontou essa idéia em uma palestra no ano de 1994, depois que alguém tentou argumentar que "aqui no Brasil é diferente". Não é. É igual.

Ele discutiu sempre a vida econômica em termos de valores: integridade, caráter, responsabilidade, deveres, dignidade, significado, qualidade de vida. Raramente seu foco é dinheiro. Critica a "imoralidade" dos altos salários dos executivos. Contesta a noção de que a posse da empresa legitima seu controle. Fala com desdém de companhias que exigem "devoção e lealdade" de seus funcionários. Para ele, isso é "invasão ilegal da privacidade, abuso de poder, usurpação pura e simples". Diz que empresas só existem por delegação da sociedade, e têm de prestar contas a ela. Só se legitimam quando funcionam como veículo para que as pessoas se realizem, não apenas para que seus donos fiquem ricos.

Muitas pessoas ficam a imaginar o que Peter Drucker diria dessa tendência do Brasil de manter o controle das empresas, eternamente, nas mãos de seus donos tradicionais. Nossas práticas de "governança" como mostra um recente estudo da McKinsey disponível na internet não coincidem com sua visão sobre o que deve ser uma empresa. Claro que há justificativas históricas (e recentes) para isso: no pandemônio inflacionário de alguns anos atrás, com congelamentos e planos miraculosos se sucedendo, as empresas tinham de responder com uma agilidade que só a centralização do poder torna possível. Mas será que isso justifica, ainda hoje, a falta de interesse dos empresários brasileiros num tema que é essencial para posicioná-los (e ao Brasil) seriamente diante da comunidade internacional.

Drucker diz: O que derrotou o marxismo foi a aplicação de conhecimento ao trabalho. Quer dizer, foi a administração. O fato, inquestionável, é que graças a isso os trabalhadores começaram a viver melhor. O ideal igualitário marxista naufragou ao colidir com um rochedo de hambúrguer. O segredo que se descobriu foi: trabalhar com mais inteligência é mais produtivo do que trabalhar mais. O que faz alguns países crescer de forma sustentada não são novas tecnologias, novas organizações e novos conceitos gerenciais.

Neste mesmo seguimento Drucker afirma que, O McDonald's e a invenção do fast-food nos anos 50. A Toyota com seu just-in-time nos anos 60. A Southwest Airlines e seu modelo de aviação comercial nos anos 70. As ONGs, os fundos de pensão como investidores, as organizações transnacionais. Conceitos novos são mais importantes que novas tecnologias. O conceito de linha de montagem de Henry Ford e a estrutura da GM com Alfred Sloan, nos anos 20, são mais notáveis do que a tecnologia do automóvel em si. A Dell (just-in-time com computadores) é mais importante que o computador. O hospital é mais importante que qualquer tecnologia médica ou avanço.

Portanto, não se trata de tecnologia. A ênfase não pode ser em tecnologia, um erro que dirigentes brasileiros continuam a cometer. A quantidade de computadores nas escolas ou o sistema operacional a ser utilizado são temas secundários. O que conta é o uso da tecnologia de modo imaginativo. Drucker zombou quando disse: "A GM jogou fora 30 bilhões de dólares investindo em robôs, até descobrir que o que contava não era tecnologia, e sim informação". Nossa concepção de economia (no Brasil e fora daqui) ainda é muito centrada em "coisas". Nossos políticos nos induzem a crer na fantasia de que emprego de verdade é em fábrica. Mas esse tipo de emprego está se tornando crescentemente desimportante. Numa sociedade cuja riqueza vem de bens intangíveis (informação, criatividade e conhecimento), a produção física aumenta, mas a quantidade de pessoas que a produz diminui. Portanto, é urgentíssimo tratarmos hoje das implicações disso.

Segundo Drucker, as pessoas nunca foram realmente importantes na equação econômica. Elas são consideradas custos, não recursos. É o sistema que é importante o one best way de Frederick Taylor, a linha de montagem de Ford, a Qualidade Total de Deming. O sistema é rei porque tem permitido a trabalhadores sem talento e sem preparo se saírem bem. Um operário de linha de montagem não pode ser melhor que a média. Tem de ser medíocre. Atrapalha a produção se não se conformar ao padrão. A nova sociedade da qual o Brasil tem de querer participar como ator, não como figurante é o oposto disso. Nela, o trabalhador vai ser valorizado por seu conhecimento individual. O conhecimento é dele, não da empresa, não do sistema. A empresa precisará mais dele do que ele dela. E não estou falando necessariamente de MBAs ou de diplomas universitários.

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O TANGÍVEL E O INTANGÍVEL NO MARKETING

Quinta, 14 de Fevereiro de 2008
A definição clássica diz que um produto, além de ser um bem, um serviço ou uma idéia que satisfaz necessidades de consumidores, possui atributos tangíveis e intangíveis. Os atributos intangíveis são benefícios emocionais e a satisfação abstrata. Aspectos como marca e atendimento, por exemplo, que podem, inclusive, aumentar o valor do produto físico.

Pense, por exemplo, na norte-americana Starbucks. Ela cresceu porque agregou um novo significado ao hábito de tomar café e transformou-o em uma experiência.

Para muitas crianças, comer um sanduíche no McDonald's é muito mais gostoso do que em qualquer outra lanchonete. E isso não se deve apenas aos ingredientes e modo de preparo dos lanches. É o valor do intangível, presente no McDonald's, na Starbucks e em diversos outros produtos e marcas.
O TANGÍVEL E O INTANGÍVEL NO MARKETING
Num primeiro momento, isso soa como algo óbvio. A grande maioria de nós já ouviu falar sobre o valor do intangível e como ele ajuda na construção de marcas. No entanto, é mais comum nos concentrarmos nos aspectos tangíveis do que nos intangíveis - e isso vale para consumidores e gestores.

Em parte, isso ocorre pela materialidade dos atributos tangíveis. Eles podem ser vistos, sentidos, apalpados. Contudo, há outro aspecto, não tão perceptível assim, relativo aos serviços. Na teoria é possível distinguir produto de serviço. Na prática, porém, essa distinção muitas vezes não existe ou é extremamente sutil para ser percebida. "Não há essa coisa de setores de serviços. Apenas em certos setores os componentes de serviço são mais importantes ou menos importantes do que nos demais. Todos atuam em serviços", afirma Theodore Levitt.

Uma das principais características dos serviços é justamente sua intangibilidade, que faz com que os consumidores procurem por sinais ou evidências da qualidade do serviço. É justamente por causa dessa característica que as empresas de serviços buscam "deixar tangível o intangível", ou seja, procuram materializar a qualidade em suas instalações, equipamentos, pessoas. Ora, se como afirma o professor Levitt, todas as empresas, em maior ou menor grau, atuam em serviços, é grande a fatia das que concentram suas atenções no tangível. E é aí que reside um enorme risco mercadológico: o de valorizar demais os atributos tangíveis em detrimento dos intangíveis.

Compreender e explorar os vários benefícios emocionais e psicológicos do produto é uma competência que os gestores devem desenvolver. No entanto, se os mesmos concentram seus esforços apenas nos aspectos materiais, tornam suas marcas vulneráveis à investidas de outros concorrentes que consigam administrar melhor os anseios emocionais dos consumidores e se relacionar com eles.

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A Estratégia da Lealdade

Domingo, 6 de Janeiro de 2008
Se você é uma daquelas pessoas que acha que fidelização e lealdade de clientes podem ser conquistadas apenas por caros sistemas de CRM, que somente grandes empresas podem utilizar, espero que este artigo ajude-o a mudar de opinião.

A estratégia da lealdade pode ser utilizada por qualquer empresa, de qualquer ramo, inclusive pela sua. O marketing de relacionamento, utilizado para alcançar maior competitividade e lucratividade, nada mais é do que o gerenciamento das atividades de atração, manutenção e aumento contínuo do nível de relacionamento com o cliente.

É importante entendermos a razão pela qual um cliente volta a comprar ou fazer negóciosEstratégia da Lealdade conosco e é aqui que entramos na estratégia da lealdade. A estratégia da lealdade é abordada através de 4 níveis. Vamos a eles:

Nível 1 - Relação financeira: é o nível de fidelidade que o cliente tem com empresas que praticam preço baixo. Ou seja, o cliente sempre volta a comprar aquele produto ou serviço porque é o que tem menor preço. O cliente tem um vínculo financeiro com a empresa.

Apesar de funcionar bem, como podemos verificar no sucesso que algumas empresas têm, deve tomar-se um grande cuidado se a estratégia estiver no vínculo financeiro pois, a partir do momento em que essas empresas não mais oferecerem o preço mais baixo, perderão seu diferencial e seus clientes irão para a concorrência que desenvolveu outro tipo de estratégia de lealdade. O vínculo financeiro é muito frágil. E nem sempre o cliente irá dar preferência para o preço mais baixo, mas sim para o que tiver melhor custo-benefício para ele. Por isso chamamos de cliente eventual.

Nível 2 - Relação social: é o nível onde os clientes voltam a comprar o produto ou serviço por questões puramente sociais, ou seja, porque conhecem o dono, porque são amigos do vendedor, porque a loja fica no bairro, etc. É um cliente regular.

Esse nível já não é tão frágil, pois baseia-se em indicações e preferências emocionais dos clientes. Porém, ainda assim tem muitas falhas, uma vez que esses vínculos sociais são mutáveis.

Nível 3 - Relação customizada: é quando o cliente começa a perceber os atributos do produto ou serviço oferecido e o valor que tem para ele. Ou seja, começa a voltar naquela loja, a comprar matéria-prima daquele fornecedor, a almoçar todos os dias no mesmo restaurante, a ficar sempre no mesmo hotel, tudo porque começa a perceber que aquela empresa realmente está oferecendo os atributos que ele valoriza - e está disposto a pagar por eles.

Essa estratégia já tem uma grande vantagem sobre a financeira e a social, pois começa a lidar com o conceito de "valor para o cliente". A maioria das empresas encaixam-se aqui (ou pelo menos tentam), oferecendo um produto ou serviço adequado para agradar a maioria de seu público-alvo. É uma tentativa de segmentação. Um exemplo fácil de entender é o McDonald's: foi feito para pessoas que gostam do estilo de comida e querem comer rápido. Veja que a estratégia deles está na padronização e não na adaptação, e o cliente que gosta dos atributos de seus produtos sai satisfeito e volta, mesmo que não haja personalização. E ainda indica para os amigos. Chamamos estes de clientes defensores.

Nível 4 - Relação integrada
: é quando você praticamente une todas as 3 estratégias apresentadas, oferecendo atributos que o cliente valoriza, por um preço que ele está disposto a pagar, e ainda integra um certo grau de adaptação para que esses atributos sejam maleáveis a ponto do cliente receber apenas o que tem interesse. Se ele quer um sanduíche sem picles, ele terá e rapidamente.

Por exemplo, a rede de hotéis Accor que possui hoje 6 marcas: Sofitel, Novotel, Mercure, Ibis, Formule1 e Parthenon. Veja que cada uma dessas marcas tem uma segmentação diferente. Assim, a Accor oferece opções integradas para seus clientes, possuindo ainda plano de fidelidade (incentivando os clientes a se hospedarem em uma das marcas da rede) e sendo socialmente responsável, com vários projetos que ajudam o meio-ambiente e a sociedade. Este clientes são fiéis e leais, por isso chamamos de parceiros.

Solidificar relacionamentos, transformar clientes indiferentes em leais e servi-los com qualidade são as melhores maneiras de aumentar vendas e melhorar a qualidade delas. Em que estratégia da lealdade seus produtos ou serviços se encontram? Como passar para o próximo nível?

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Estratégias no Varejo Infantil

Quinta, 31 de Maio de 2007
O público infantil hoje é considerado um público consumidor. Como o varejo pode acompanhar esta transição?

Vejamos o histórico passado e a revolução dos costumes e hábitos. A própria emancipação feminina e sua participação atuante no mercado de trabalho, fizeram com que aumentasse a importância decisória do publico infantil em todos os itens de consumo. O decisor potencial de compras e tendências, até pela ausência de tempo dos pais, está cada vez mais para quem indiretamente participa dos veículos naturais da mídia moderna. Compete ao varejo entender e conseguir penetrar dentro do mundo aonde os hábitos infantis costumam pesquisar, acessar e orientar suas opções.

- O poder de decisão, no caso de vestuário e calçados, já é das crianças. De que forma é possível encantar este pequeno cliente?

A imagem ainda é um forte apelo ao consumo, é pelo visual e forma criativa da sua exposição que conseguimos chamar a atenção, de um publico aonde a diversidade de opções ofusca o direcionamento entre esse ou aquele produto. A idéia da multi-utilidade de um produto é fantástica, ou seja , tentar ampliar seu uso ou mesmo sua necessidade. Lembramos a extensão adquirida pelas ações de empresas com o Mcdonald, adicionando prazer e desejo com suas seleções sempre atualizadas e renovadas na política de vendas dos alimentos versão infantil e também no segmento das tradicionais havaianas e o trabalho de imagem que agregou sua extensão de utilidade, unindo desejo renovável e colecionável ao mercado infantil.
A juventude compra sonhos e desejos, compete ao mercado impulsionar suas atitudes para encaminhar a percepção na direção dos seus interesses.

- Que estratégias de marketing funcionam com este público?

Não existe nada definido, no fundo o que faz atingir o resultado por um marketing inteligente é a capacidade de interpretação pela vivencia próxima ao mercado que preiteamos. Nesse caso a pesquisa e o entendimento das tendências futuras traduzem o que podemos criar como prazer em complementação aos estilos e gostos. Não consigo imaginar nada nesse mercado, sem a minha presença dentro dele ou seja se você não tem filhos, se matricule de alguma forma no mundo deles, perceba seus hábitos, assista seus filmes, conheça sua linguagem e assim comece a pensar no que gostariam amanhã.

- Como atender este público? Dar atenção aos pais ou às crianças é a melhor opção?

Em primeiro trate-os como gostariam, lembrando que nossas crianças são os adolescentes do passado, acessam a internet, não mais se interessam por branca de neve e os sete anões, e assim devem ter um espaço que as valorizem integrando-as aos meios. Os Pais na verdade sempre estarão pelas definições finais do como definir as compras, mas cada vez mais distantes do onde e o que compra-las.

- Em relação ao ponto-de-venda, como deve ser o lay out adequado?
Deve integrar vida, incluindo características que façam uma extensão dos seus mundos. Espaços que completem o produto adicionando processos de fixação e lembranças para garantir a preferência. A capacitação humana nesse item será fundamental pois estabelecerá vínculos de linguagem em todas as fases do processo e continuidade do envolvimento.

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Cultura global: nova perspectiva de cidadania

Quarta, 30 de Maio de 2007
Ao se refletir sobre a transformação da cultura e da comunicação na segunda metade do século XX, avalia-se até que ponto o fenômeno da Revolução e o movimento revolucionário de maio 68, terão influído na dinamização daquele processo. Não se tem o objetivo de estabelecer a relação causa e efeito, mas o de flagrar a interrelação que se opera entre revolução, comunicação e cultura.

Partindo da concepção estrutural de cultura proposta por Thompson, delineia-se o altíssimo grau de importância que se atribui ao estudo das formas simbólicas, que vai além da análise dos traços de sua estrutura interna. Devem-se privilegiar os processos, as instituições e os contextos sociais dentro dos quais o discurso é pronunciado, transmitido e recebido, pela análise das relações de poder, formas de autoridade, tipos de recursos e outras características desses contextos.

Procurando aprender a lição do maio 68 no Brasil, e tomando a França como referência, pelas transformações ali ocorridas, vai-se registrar a crise da burguesia, que provocará uma fissura no tecido social. O movimento estudantil contribuiu para demonstrar os impasses econômicos. Mascarava-se a destruição dos antigos valores sobre os quais era moldada a burguesia pela "dinâmica econômica da época" e pelo "derramamento dos valores sobre o individualismo privado".

A manifestação pública dos jovens ofereceu um belo exemplo de nacionalismo e conscientizou a decadência, ou, mesmo, a morte da sociedade que assistia à derrocada dos valores familiares e religiosos. Esta é apontada como a causa, talvez, de desordens da alma e da consciência observadas, e do surgimento de uma sociedade sobretudo indiferente, anônima e cibernética, que irá constituir uma comunidade muito frágil. A partir daí coloca-se em evidência uma nova postura humana, e, segundo Morin (1988, p. 124), o movimento de 68 reintroduziu, no mundo moderno, em países prósperos, "fermentos tradicionais de contestação" que, trabalhando o terreno novo, pôde acelerar as mutações dos séculos XX e XXI. Castoriadis (Ibidem), entretanto, argumenta que o fermento da "crise" se instala na juventude (estudantes, operários, professores, etc), e questiona se, no futuro, terão elas coesão suficiente para desempenhar uma função histórica. Não serão tragadas pelo império da cultura a que são subjugadas?

Pensa-se que a resposta já está sendo dada pela cultura dos tempos de hoje que, cada vez mais, faz parte de um processo de mercantilização que se diz de caráter global.

Featherstone (Featherstone, 1994, p. 71) questiona a expressão cultura global se global referir-se à "cultura do estado nacional como um todo". Entretanto, segundo ele, seria admissível se se abandonasse a estaticidade do conceito de global e se se reportasse a processos de integração e desintegração cultural que ocorrem a nível transnacional ou transocial. Como afirma o autor, "pode ser possível destacar processos culturais transociais (...) que sustentam a permuta e o fluxo de mercadorias, de pessoas, de informações, conhecimentos e imagens que dão origem aos processos de comunicação e que adquirem uma certa autonomia a nível global". São os chamados sistemas emergentes de "terceiras culturas" que ultrapassam o simples sistema de trocas bilaterais. Featherstone salienta ainda que o processo de aculturamento global não concorre necessariamente para o enfraquecimento dos países, e, também, as terceiras culturas não concorrerão obrigatoriamente para a homogeneização.

É importante que se chame atenção para o fato de que uma discussão sobre cultura global é delimitada por um tempo, um espaço e por agentes de discussão específicos. O próprio tempo em que se discute está sujeito a discordâncias no que toca à sua caracterização.

Marshall Berman, por exemplo, não aceita que se denomine como pós-modernidade a época em que se vive. Ele é um dos maiores defensores do termo Modernismo. Para esse autor, "ser moderno é descobrir que estamos em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, transformação de nós mesmos e do mundo - e que, ao mesmo tempo, ameaça destruir tudo o que temos, o que sabemos, tudo o que somos". A modernidade unifica toda a humanidade, mas "é uma unificação paradoxal, uma unificação de desunião; despeja todos nós no turbilhão de eterna desintegração e renovação, de luta e contradição, ambigüidade e angústia" (BERMAN, apud KUMAR, 1997, p. 85). Berman é implacável com pensadores do grupo de pós-modernos da década de 70: Derrida, Barthes, Lacan, Foucault, Baudrillard e seguidores. Afirma que eles se retiraram para um mundo intelectual abstrato, alienado de qualquer realidade política e social -- se apropriaram da linguagem modernista de progresso radical, transformando-a num jogo essencialmente estético, dissociada de seus contextos político e moral. Seriam eles os herdeiros das esperanças frustradas de maio 68 na França, e "se enterraram em uma grande tumba metafísica, espessa e apertada o suficiente para fornecer conforto duradouro contra as cruéis esperanças da primavera" (Ibidem, p. 186). Berman, Habermas e pensadores afins crêem que a modernidade ainda não se concluiu, do momento em que em grandes espaços do mundo está-se começando a viver a sua plenitude. É um processo que tem ainda um potencial a ser vivido, e "apropriar-se da modernidade de ontem pode ser simultaneamente uma crítica à modernidade de hoje e professar um ato de fé na modernidade ... do amanhã e do depois de amanhã " (Idem). Isso atesta a concordância com o pensamento de muitos estudiosos de que o manancial de estudo sobre a modernidade se encontra nos pensadores, filósofos e escritores do século XIX, como Marx, Nietzsche, Baudelaire e Dostoiévski.

O caminho para a civilização científico-industrial, escolhida pela maioria das sociedades, foi o do fundamentalismo secular do Iluminismo, e Gellner assinala que "vivemos em um mundo no qual o estilo de conhecimento (a racionalidade do Iluminismo), embora nascido de uma única cultura , está sendo adaptado por e a cada uma das múltiplas culturas surgidas, com enorme rapidez e ânsia, subvertendo muitas delas e transformando totalmente o ambiente em que vive o homem. Isso é apenas um fato" (GELLNER, apud KUMAR, 1997, p. 187).

Diante dos prós e dos contras, cabe a pergunta: A pós-modernidade realmente existe? Segundo Krishan Kumar, se não existe, ela nos cerca por toda parte. A criação incessante de "um ambiente saturado de imagens" autentica-a, segundo o autor, uma vez que é veiculada pelas indústrias da cultura. Vive-se, pelo menos durante grande parte do tempo, uma realidade virtual que é experimentada extaticamente por meio da Internet, com deleite ou sofrimento, no trabalho ou no lazer. Vive-se o momento da cultura-mercadoria, em que a cultura deixou de ser um complemento à nossa atividade de trabalho para constituir a própria atividade, que toma uma dimensão industrial, sendo produzida e consumida inclusive nas horas de folga.

Alguns estudiosos, apesar de sua cautela em afirmar o pós-modernismo como teoria, denominam-no "a lógica do capitalismo tardio". Se se quer proceder a uma análise que produza frutos, deve-se focalizar as áreas econômica, social e política.

Segundo ainda Kumar, a pós-modernidade se concentra mais nos efeitos perceptivos e expressivos da tecnologia da informação do que em seu impacto econômico, como atestam os trabalhos de Jean Baudrillard e outros.

Já se fez referência às importantes transformações que a visão da realidade e o comportamento individuais vêm sofrendo, mas seria duvidoso afirmar que a sociedade de informação estaria inaugurando "uma nova ordem social".

Com respeito aos novos movimentos sociais, ao invés da propalada homogeneização automática, flagra-se uma tensão entre o local e o global, avultando a importância que se dá à interação com as operações do capitalismo contemporâneo.

Como declara Harvey, "quanto mais unificado o espaço, mais importantes se tornam as características da fragmentação para nossa identidade e ação social. A livre circulação do capital pela face do globo (...) coloca uma forte ênfase nas qualidades particulares dos espaços para os quais esse capital poderia ser atraído. O encurtamento do espaço, que põe em concorrência comunidades diferentes em todo o mundo, implica estratégias competitivas voltadas para o local e um senso aguçado de percepção do que torna um deles especial e lhe confere vantagem competitiva.

Indiretamente o global estimula o local mas esse assunto se reveste de muita complexidade. Como acrescenta Harvey, "a acumulação flexível explora tipicamente uma larga faixa de circunstâncias geográficas aparentemente contingentes e as reconstitui como elementos internos estruturados de sua própria lógica abrangente" (HARVEY, 1989, p. 24).

Parece que o pós-modernismo, na defesa da característica de apologia ao lugar e às identidades locais, ignora esse fator irrefutável, uma vez que o constata e o louva, como se fossem verdadeiras essas manifestações de aparente autonomia, geradas por forças ocultas que dissimulam a liberdade de uma auto-afirmação local. Assim, faz-se mister que a produção local se adapte a um capital cada vez mais versátil da economia mundial. Cria-se um produto, com pequenas variações de características específicas, ligando-se o global ao local e ao diverso. Poder-se-ia fazer referência, entre outros, ao marketing global do McDonald's, da Disneylandia, das cadeias de hotéis Hilton e Holiday Inn (de origem americana). Também veículos de comunicação global, como a News Corporation, de Rupert Murdoch, ou a Sony Corporation, do Japão, constroem e propagam as preferências e as posturas de destaque por todo o mundo. Pode-se identicamente considerar Londres, Nova York ou Tóquio como cidades globais, de onde provém o controle mundial da circulação de "imagens, informações, bens e serviços padronizados".

Se se refletir aí sobre o emprego do termo global , vê-se que ele é postiço, do momento em que ele encobre sua procedência. É compreensível que essa ideologia de marketing se difunda principalmente a partir dos Estados Unidos, do momento em que ela concorre para lhes fortalecer a hegemonia. É de interesse deles que se diga, por exemplo, que a Coca-Cola , a Disneylandia ou os hotéis Hilton sejam empresas globais antes de serem norte-americanas, o que, nesse contexto, faz certo sentido. Entretanto, o que não se compreende é que o resto do mundo aceite tal impostura.

A ilusória especificidade do produto atende à demanda de um marketing global, que se realiza por meio dos shopping centers existentes em grande quantidade no mundo capitalista moderno. Constata-se neste último quarto de século uma vitalidade do capitalismo que se dissemina e atinge todo o globo, verticalizando a influência sobre o quotidiano das sociedades ocidental e ocidentalizada, e interiorizando-se na política e na cultura, e no bem-estar social. Essa influência faz-se sentir também na educação, nas artes, nos meios de divulgação, na saúde, na seguridade social, e até na polícia e nos serviços penitenciários.

Lamentavelmente, tem-se de reconhecer que o planeta passa por uma metamorfose que busca transformá-lo numa imensa zona de livre comércio. Isto é expresso sintomaticamente, no quotidiano, por uma ideologia que busca fazer-nos ingressar numa sociedade global. Como aponta Alain Touraine, "uma coisa é afirmar o triunfo de uma sociedade de mercado; outra, totalmente diferente, é dizer que a sociedade deve ser regulada como um mercado, e, portanto, ser liberal, ou seja, capaz de reduzir, tanto quanto possível, as intervenções voluntaristas do Estado, dos monopólios, da Igreja (TOURAINE, 1996, p. 6).

A política de consumo passou a visar o corpo e o sexo. Como afirma Kumar, "a publicidade tem procurado nos conscientizar de novas ansiedades de identidade e segurança pessoal e garantir-nos que há mercadorias e serviços que podem satisfazer todas as nossas necessidades e aliviar todos os nossos medos" (KUMAR, 1997, p. 201). Em todos os espaços o capitalismo formou uma estratégia para transformar tudo em mercadoria a ser consumida.

A partir desse status quo muitos teóricos concentram no capitalismo a causa das mudanças do mundo atual. Vêem-no como um processo em constante mutação que forja novas formas de arte, valoriza a cultura e a informação e mantém um equilíbrio entre o público e o privado. Tudo isso seria propulsionado pela acumulação do capital e pela ampliação cada vez maior do mercado.

Se existem teóricos que admitem a óptica do "imperativo capitalista", outros há que vêem nela um exagero. O "império capitalista" não é exclusivo do tempo presente. Ele se fez sentir em outras épocas do passado, como, por exemplo, na Renascença e no Romantismo.Também no início do século já se falava de economia global, ou do triunfo da economia financeira. Entretanto, anos mais tarde, estouraram guerras e revoluções locais, que revigoraram a situação dos Estados nacionais. Touraine acredita que se dissipará num amanhã a ilusão de um mundo globalizado, e que o império chinês ascenderá, como aconteceu com o poderio japonês, anteriormente à "grave crise financeira" que reduziu "durante alguns anos as ambições das empresas nipônicas".

Apesar de reconhecer-se que ainda não se deixou de viver num mundo dominado pelo capital, se se fala em pós-modernismo, pergunta-se até que ponto, em sua abrangência, ele só pode ser explicado pela sistemática do movimento capitalista?

Diversos autores distinguem duas formas principais do que chamam pós-modernismo: "um pós modernismo adaptativo e um pós-modernismo de resistência. O primeiro parece ajustar-se à demanda do chamado "capitalismo tardio". Incensa a cultura de massa, o consumismo e o comercialismo. Com respeito à cultura de elite, assume uma postura marcadamente populista. Adere ao slogan "Compro, logo existo". Como atitude de vida, ao menos aparentemente, se ajusta aos diversos aspectos do modo de vida da nova classe média "pós-industrial", como "na mídia, na publicidade, na educação superior e nas finanças". O segundo resiste à cultura capitalista contemporânea, gerando movimentos sociais que reivindicam maior liberdade de pensamento e ação no que toca aos reclamos das minorias, com respeito a sexo, raça, ou mesmo melhores condições locais de vida, preservando sua singularidade doméstica. São solidários aos que se opõem à homogeneização capitalista.

A globalização pode significar ainda uma nova perspectiva de cidadania e de consciência global. O chamado pensamento pós-moderno, que veicula a globalização, nesse aspecto, se volta contra a tentativa de unificar a história ou o segmento geográfico do globo. Se por um lado, há o reconhecimento de uma utopia nacionalista ou localista, por outro, paradoxalmente, reconhece-se o direito de mobilização de um novo florescimento de qualquer nação ou local.

Daí acrescentar-se que "o pós-modernismo, de uma maneira, reage contra o universalismo do Iluminismo, mas, de outra, promove o cosmopolitismo iluminista" (Ibidem, p. 203), isto é, espera-se que o produto multinacional, ao invadir o local, encontra resistências provindas das peculiaridades contextuais e culturais. Deverão ser mobilizadas forças locais que aproveitem o máximo da interação entre o global e o local. Nesse caso, tomar uma atitude reacionária poderá prejudicar o fluxo da história. A identidade do lugar e das pessoas está em constante transformação e, também, se beneficiará das influências estrangeiras, sem abrir mão de suas características essenciais.

As mudanças no mundo de hoje acontecem principalmente nos setores político, cultural, social e espacial, que, naturalmente, são interdependentes. Em vez de se absolutizar e eternizar a vigência do capitalismo, tem-se de analisá-lo como um ocorrência circunstancial. Este se fortaleceu mais com a queda da União Soviética, e o declínio, em geral, do socialismo. Há ainda a possibilidade de que o capitalismo avance, e não há como fugir da sua face global. Entretanto, tem-se de reconhecer o que lhe é característico, por meio de certa flexibilidade, condicionada à diversidade de lugares e ocasiões, e que, de certa forma, se reconhecerá como o "capitalismo pós-moderno".

Mesmo sem concluir se o momento que se vive é plenamente pós-moderno ou ainda moderno, sente-se que ele é de essencial importância, e que dirige a reflexão sobre si, principalmente pela tendência globalizadora da cultura. Se por um lado se constata este aspecto horizontal da rede de relações que se impõe, por outro, tem-se de reconhecer o aspecto vertical, ou, seja, o da especificidade localista. Dependendo da situação, a atuação globalizadora da cultura pode tornar-se uma força sobre a qual a sociedade não tenha controle. Qualquer sociedade, para se unir, necessita de que seus valores sejam compartilhados, mas não os de mercado em que um participante, numa troca livre, será o que paga ou o que recebe; tudo nessa troca, como seres humanos (trabalho) e natureza(terra) são reduzidos a mercadorias. Ao contrário da economia de mercado, uma sociedade de mercado jamais vingará porque a sociedade, que tem como agentes seres humanos, necessita de instituições que estejam coerentes com seus objetivos, como liberdade política e justiça social. O que se pode flagrar é que o crescimento da sociedade global, se isto, realmente, está sendo possível, tem-se defasado com relação ao da economia global.

A partir daí é-se levado a pensar nos chamados países do Terceiro Mundo, em que "o êxodo rural, migrações, explosão demográfica, pobreza e marginalidade", fazem com que eles se apresentem quase que completamente frágeis e impotentes diante da ação de agentes político-sociais poderosos.

Como exemplo ilustrativo, poder-se-ia citar, mutatis mutandis, a visita do presidente Clinton em outubro de 1997 ao Brasil, revestida, aparentemente, de encantadora simpatia, mas nem por isso destituída de séria busca de objetivos.

Pela competente cobertura feita pelo Jornal do Brasil, de 16.10.97, Primeiro Caderno, com abundância de detalhes e imagens, destacando-se a foto do presidente tentando tocar tamborim e ocupando quase toda a primeira página, pode-se apreciar a performance de um estratego político exemplar. Consciente dos conflitos sociais gerados pelos impasses neoliberais, Clinton se adianta a dizer que "a globalização não reduziu os problemas sociais". E acrescenta: "Estudamos as possibilidades de incrementar nosso comércio global, mas temos de trabalhar arduamente para reduzir as lacunas entre os que têm e os que não têm, e assim garantir que todos tenham trabalho no futuro que estamos construindo." Aí pode-se registrar a preocupação de negociar nas duas frentes, a da integração comercial e a do progresso social.

É bem contraditória a referência acima,do momento em que, segundo alguns estudiosos, é a própria globalização do sistema que se coloca como a causa que impede a garantia do bem-estar dos cidadãos, até no chamado Primeiro Mundo.

Principalmente nos países mais desenvolvidos da Europa e da América do Norte, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, o Estado teve papel importante na manutenção da estabilidade econômica, buscando oferecer igualdade de oportunidades e assistência social básica . Entretanto, bem diferente desse passado não tão longínquo, na era globalizada os recursos para fins sociais foram duramente prejudicados, porque o capital escapa da taxação muito mais facilmente do que o trabalho.

Segundo o economista Dani Rodrik, apud George Soros (Veja, 24.12.97, p. 90), "a globalização aumenta as demandas sobre o Estado, para que ele proveja benefícios sociais, enquanto reduz a capacidade de atender a essas demandas", o que conduz ao cerne do conflito social. "Se os serviços são muito reduzidos, no momento em que a instabilidade está em alta, o ressentimento popular pode levar a uma nova onda de protecionismo, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa".

Continuando o discurso: "No Brasil, nos Estados Unidos e pelo hemisfério afora, muitas pessoas questionam a pressão da competição e não sentem os benefícios das mudanças que estão em curso." Com relação aos que têm e aos que não têm, o tal abismo é, para ele, "uma praga antiga na América Latina, a qual precisa ser tratada com mais seriedade, não só por governos, mas também pela iniciativa privada".

Esta fala nos faz pensar no relacionamento entre capitalismo e democracia. Como aconteceu no Japão, na Coréia e nos "tigres" do Sudeste Asiático, o Estado se aliou a empresas locais que necessitavam de ajuda e colaborou para que eles acumulassem capital. Tem-se um modelo de desenvolvimento que transita da autocracia e da acumulação de capital para a democracia e a prosperidade. Naturalmente, isso ocorre mais facilmente em países prósperos do que em países pobres. Entretanto, não é assegurada a transição da autocracia para a democracia, porque os que estão em posição de mando não querem, de maneira alguma, abrir mão de seu poder.

O pomo da discórdia, a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), só foi mencionado uma vez, apoiando-se argutamente na referência ao Mercosul, sobre o qual teve sua opinião mudada, em virtude de circunstâncias políticas contrárias: "Esperamos que cada passo desse processo de integração hemisférica, seja no Mercosul ou no Nafta, seja onde for, nos leve ao objetivo comum, que é uma área de livre comércio das Américas em 2005". Américas, para o presidente, é a parcela do globo que vai do Alaska à Patagônia.

Mercados comuns foram um tema recorrente. E com a idéia obsessiva de garantir a hegemonia dos Estados Unidos, referia-se sempre ao Mercosul como algo compatível com aquela pretensão: "Eu quero que a América lidere o processo de integração econômica, elevando os padrões de vida do nosso hemisfério e também do mundo."

É ilusório crer que um país se desenvolva sem uma política forte, do ponto de vista de seu sistema e de sua vontade. Daí a existência do Mercosul que busca, para o Cone Sul, uma união econômica, do tipo europeu, que concorra para criar um ator político nacional. Naturalmente, esse vislumbre de fortalecimento assusta o presidente americano, que não quer que se enfraqueçam os laços comerciais com a periferia, e tem uma meta a alcançar, mais ampla, em 2005, que é o livre comércio das Américas.

Plano Real, prosperidade brasileira, educação e tecnologia, Internet e novas tecnologias de comunicação, foram também assuntos inseridos inteligentemente em seu discurso.

E com um fecho de ouro, no discurso em São Paulo, questiona: "Que países têm feito mais pela economia global?" Ao que responde: "As nações precisam ter o globo dentro de suas fronteiras. Esta é uma lição que Brasil e Estados Unidos não devem jamais esquecer."

No discurso pronunciado em Brasília, Clinton declara que "Brasil e Estados Unidos têm uma responsabilidade muito especial, que é a de liderar as Américas no século XXI". Segundo analistas de diferentes tendências, essa afirmação seria resultante da impressão que lhe causaram o peso da economia brasileira, a extensão geográfica, a população expressiva, e a política externa adotada neste século. Mesmo assim, é de se admirar que um país de Primeiro Mundo, que tem a dianteira econômica, queira aliar-se a um país "em desenvolvimento". Com respeito ao que José Carlos Braga expõe sobre o assunto em foco, acusa-se um abismo entre os dois pontos de vista. Segundo este autor, a globalização vive sob o seu espectro de nem colapso nem desenvolvimento. A instabilidade contemporânea tem sido perversa, no sentido de querer "combinar alta especulação financeira com crescimento mínimo, coisa capaz de evitar o colapso, garantir, em geral -- com o apoio dos tesouros nacionais e dos bancos centrais -- os lucros de todo tipo e arrebentar com a maior parte das periferias sociais e geográficas"(BRAGA, 01.09.96, p. 3).

Ainda segundo o autor citado, ao invés de um porvir promissor, se nos afigura uma catástrofe que tem sua causa: na paulatina estagnação da economia desde os anos 70, em comparação com anos anteriores; no declínio gradativo da força econômica dos Estados Unidos, apesar de ainda hegemônico, do ponto de vista monetário, industrial, comercial e fiscal; no fenômeno de desemprego estrutural da Europa; na tendência, nos anos 90, à desestruturação do capitalismo japonês, caracterizado, antes, pela organização; na mercantilização desordenada e bárbara da Rússia; no processo de desindustrialização da América Latina, que tem, incondicionalmente, como meta, a "estabilização a qualquer preço, baseada em âncoras artificiais, sobretudo, a cambial"; na situação da África, que torna o continente indesejável aos investidores, no que toca à qualquer missão civilizatória.

Salta aos olhos, finalmente, "uma economia fetichizada em que a circulação monetário-financeira ampliada em vertiginosa espiral guarda tênue correspondência com os fundamentos econômicos esmaecidos do investimento produtivo, da renda (lucros operacionais e salários), do emprego, da infra-estrutura econômica e social"(Idem). Acrescente-se, ainda, a decadência das dívidas financeirizadas dos Estados nacionais que crescem gradativamente, em vista de seus títulos nutrirem a juros o capital globalizado.

O que se disse até agora seria suficiente para fornecer elementos de análise da visita do presidente americano ao Brasil. Preservando a hegemonia do país que governa, será bastante conveniente, para ele, associar-se a um país que ainda guarda reservas de extensão territorial e latência de progresso, fortalecido pela existência de uma Amazônia, já caracterizada como "o pulmão do mundo".

Ao acolher o globo em sua fronteiras, o Brasil terá nelas, prioritariamente, os Estados Unidos, que, com isso, alargarão seus limites territoriais.

O Brasil e os demais países das Américas, de economias periféricas, de acordo com o quadro atual da divisão internacional do trabalho, da renda e da riqueza, já têm reduzidos seus graus de liberdade na reestruturação de suas economias. E o que ainda estará por vir?

Pelo que se relatou, e segundo A. Giddens (2002, p. 13), "há razões fortes e objetivas para se acreditar que estamos atravessando um período importante de transição histórica".

Como um fenômeno pluridimensional e inovador, a globalização põe em jogo um sem número de formas de risco que vão desde as envolvidas na economia eletrônica global até a vida quotidiana de cada um.

Há de se atentar, portanto, para a importância do que se refletiu.

O mundo contemporâneo escapou aos moldes delineados pelos iluministas e por Marx, no sentido de que o homem, por meio de sua racionalidade, poderia mudar os rumos da história. A ciência e a tecnologia tornaram-se globalizadas e, muitas vezes, em sua escalada de progresso prestam desserviço à humanidade, caso da poluição ambiental, do efeito-estufa e do buraco de ozônio.

Conduzida pelo Ocidente, a globalização continua a carregar a marcante influência do poder americano, político e econômico, com extrema desigualdade em suas conseqüências. Mas, numa ocorrência de fatos em escala global, ela afeta também os Estados Unidos.

Paradoxalmente, a globalização estimula a expansão da democracia e denuncia os limites das estruturas democráticas mais conhecidas.

Faz-se mister, pois, que o homem se conscientize do momento em que vive, assumindo o controle de um mundo que, cada vez mais, perde sua legítima direção.

Milton Santos (2001, p. 154) adverte que "a globalização atual e as formas brutais que adotou para impor mudanças levam à urgente necessidade de se rever o que fazer com as coisas, as idéias e também com as palavras. Qualquer que seja o debate, hoje, reclama a explicação clara e coerente dos seus termos, sem o que se pode facilmente cair no vazio ou na ambigüidade".

A história de cada nação é amesquinhada em nome do alcance de metas quantitativamente indiciais de progresso, hegemônicas, que decorrem da abertura e da obediência dos países subjugados, tendo, como conseqüências, mais fragmentação e mais desigualdade. Neste status quo, é notório que o discurso da globalização, em suas múltiplas faces, sirva de alicerce ao poder dos Estados, das empresas e das instituições internacionais. Sem esperança de um futuro promissor, instala-se um sentimento de indiferença que contamina jovens e até mesmo intelectuais.

Seguindo a óptica do pensamento único, apresentam-se apenas algumas possibilidades de realização, omitindo-se outras que se poderão manifestar, quer sejam já existentes ou perfeitamente passíveis de existir.

Segundo ainda as pegadas de Milton Santos (2001, p. 161), que crê na viabilidade do surgimento de uma outra globalização, ao invés de um, se depararão muitos futuros, "que resultarão de arranjos diferentes, segundo nosso grau de consciência entre o reino das possibilidade e o reino da vontade". E acreditando na perspectiva de um futuro diferente, assinalam-se desde já algumas manifestações: "a tendência à mistura generalizada entre os povos; a vocação para uma urbanização concentrada; o peso da ecologia nas construções históricas atuais; o empobrecimento relativo e absoluto das populações e a perda da qualidade de vida das classes médias; o grau de relativa "docilidade" das técnicas contemporâneas; a "politização generalizada", permitida pelo excesso de normas; e a realização possível do homem com a grande mutação que desponta" (Idem).

Neste início de século, a palavra velocidade cada vez mais faz sentido. Tomando as técnicas como normas que seguem uma diretriz política de poder, instala-se um círculo vicioso. Nas diversas camadas da vida social, a rapidez dos processos conduz à maior rapidez nas mudanças, que, por sua vez, acelera novos processos e gera a necessidade de novos seres organizadores.

Constata-se, assim, o império das normas, constituídas por agentes centralizadores, planetários, ubíquos. Registrando-se algumas vezes o conflito entre elas, produz-se, para os indivíduos, uma atmosfera de insegurança e até mesmo de medo. Apesar disso, e acendendo a esperança do reavivamento, apontam-se os que não se deixam vencer por esse império e buscam cada vez mais conscientizar-se quanto ao destino do Planeta e do Homem.

Referências Bibliográficas

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Telenia Hill é crítica e ensaísta. Pós-doutora em Ciências Sociais e Humanas pela Sorbonne-Paris Vème. Professora na Escola de Comunicação da UFRJ. Pesquisadora e orientadora nos cursos de Mestrado e Doutorado. Premiada pela Academia Brasileira de Letras com os prêmios Sílvio Romero, de crítica literária, e Assis Chateaubriand, de textos publicados na Imprensa, e pela U.B.E., com os prêmios Guararapes e Alejandro Cabasa (ensaio cultural). Agraciada pela U.B.E. Rio de Janeiro, como personalidade cultural do ano (1995). Além de jornais e periódicos especializados, tem colaborado nas revistas Colóquio-Letras, Lisboa; Taíra, Grenoble, França; Sociétés, Paris; Cahiers de l'imaginaire, Paris/Montpellier; Proceeding of Brasa Conference, Washington; Eco Escola de Comunicação da UFRJ), e Vozes, Petrópolis (RJ). Dentre outras obras, é autora de: Perspectivas (em colaboração); O trajeto da imanência; Literatura, existência e poder; L'homme dans la modernité: une histoire de mythes; Homem, cultura e sociedade, em pré-publicação.

Fonte: GHREBH - http://revista.cisc.org.br