Jerônimo Mendes
Terça, 22 de Julho de 2008
Você conhece alguém que vive conectado na web? Tem pelo menos dois ou três
endereços de e-mail? Possui I-Phone e I-Pod? Vive com o notebook a tiracolo e
dorme com ele ligado sobre as cobertas enquanto tenta assistir o Programa do Jô?
Participa de reunião sempre com o celular na mão esperando a próxima ligação ou
a próxima mensagem? Não vê a hora de chegar ao escritório para entrar no Outlook
e ler centenas de e-mails de utilidade duvidosa? Tem lugar garantido no Orkut,
My Space e Hi-5? Alguém que conversa contigo sem desgrudar os olhos do micro?
Você pertence a alguma tribo ou comunidade do Orkut, grupo de amigos no Yahoo,
Hotmail ou MSN? Entra no carro e não acalma enquanto não recebe ou faz uma
ligação no celular? Fica nervoso quando viaja e não consegue encontrar uma lan
house para ler os e-mails? Assinou TV a cabo com tripla função: telefone fixo,
entretenimento e Internet? Dirige o veículo passando mensagem e atendendo o
celular?
Se você respondeu a qualquer uma das perguntas, cuidado! Esse alguém faz parte
da tribo dos brinquedinhos eletrônicos, a qual, aos poucos, vai sendo
escravizado por ela. Imagine que há vinte anos vivíamos muito bem sem tudo isso
e éramos felizes. Hoje está difícil imaginar o contrário. Como vamos sobreviver
sem tudo isso e voltar a ser felizes? Quando voltaremos a dormir oito horas por
dia?
Uma das grandes reclamações do mundo corporativo atual é a falta de tempo para
cumprir as tarefas transformam um dia de oito horas em um dia de doze horas, no
mínimo. Entretanto, entre o tempo de leitura dos e-mails, no período da manhã
(entrada) e no período da tarde (saída), são duas horas ou mais de
produtividade, sem contar ainda o tempo sacrificado durante o horário de almoço
para responder mensagens no Orkut e comprar brinquedinhos eletrônicos na web,
depois de uma ampla pesquisa no Bondfaro, Buscapé, Cadê e QueBarato.
Brinquedos eletrônicos são para isso mesmo. Por exemplo, quando você está em
viagem e o chefe liga, você não é obrigado a atender, afinal, na área em que
você atua o sinal da operadora é fraco. Quando você recebe mensagens de cobrança
ou um puxão de orelha por e-mail, melhor ainda, você pode antes pensar na
resposta e jurar que ainda não tinha lido. Você lembra que o chefe tem aquele
maldito sinalizador para saber se você leu ou não o e-mail, então você nem abre,
pois é “chumbo grosso” na certa. Posteriormente, depois que o chefe acalmou, a
resposta pode ser aquela do tipo “entendido, chefe, estou correndo atrás, ligo
mais tarde” enquanto a secretária dele tenta, desesperadamente, fazer contato
contigo.
Todos os seus amigos têm celular, notebooks, I-Phone, Palm e outras
parafernálias eletrônicas. A realidade é dura. O seu filho de quatro ou cinco
anos não quer mais saber de bola nem de parquinho nem de carrinho. Ele quer
mesmo um celular, primeiro porque os amigos de escola têm, segundo porque sua
mãe, a avó dele, conseguiu um empréstimo em consignação no banco e prometeu a
ele que daria o celular de presente no aniversário.
Considerando tudo isso, você imagina o seguinte: legal, a despesa não vai sair
do meu bolso, pelo menos até chegar a primeira fatura da conta telefônica. E
quando chega você se põe a esbravejar, afinal, apenas com torpedinhos e acesso
aos jogos online, seu filho conseguiu gastar a modesta quantia de R$ 69,90.
Deixa ele, diz a avó, pois o pobrezinho não tem noção de valor. Ainda bem que
você tem acesso ao Internet Bank e já conseguiu cadastrar a conta em débito
automático, ou seja, não há como fugir.
Pensando bem, em vez de gastar esse dinheiro todo sem controle, você acha melhor
contratar um plano maior, aquele de R$ 99,90, com acesso ilimitado. Você se
anima e quando chega à loja da operadora acaba sendo fisgado pelo sorriso
daquela atendente, um graça de menina, que o convenceu a contratar o plano
familiar, por apenas R$ 399,90 por mês, com direito a quatrocentos minutos de
conversa e mais cem torpedos, exceto as ligações à distancia, é óbvio.
Conclusão: mais um compromisso financeiro assumido enquanto o portão da
garagem está caindo, o colchão da cama está afundando e a cortina da sala está
sofrível. Tudo bem! O que a gente não faz por um filho? Afinal, ele merece ter
tudo aquilo que você não teve quando era pequeno.
Interessante! Agora que o seu filho tem celular e até mesmo o seu antigo
notebook para se conectar na web, sozinho no quarto, não há tanta necessidade de
você brincar nem conversar com ele. Quando for o caso, você pode passar uma
mensagem do seu Palm ou mesmo do celular, da cozinha para o quarto: desça filho,
o jantar está pronto. Bjus... Papai.
Brincadeiras à parte, isso é apenas uma idéia do que a escravidão dos brinquedos
eletrônicos pode fazer com as pessoas. Quanto ao lado financeiro pode-se pode
dar um jeito. Quando o lado emocional é afetado e a pessoa acaba se tornando uma
verdadeira alienada, o perigo é iminente. Contudo, por conta da pressão no
trabalho, poucas pessoas se dão conta da situação. Resultado: insônia, estresse,
infarto, isquemia cerebral, isolamento e outros males que afetam a sociedade
moderna.
Existe um número razoável de empresas onde a pressão por resultados é
assustadora, entretanto, ao circular pelo ambiente, pode-se notar também um
número considerável de profissionais entretidos em sites de relacionamentos, MSN
e outros brinquedinhos, independentemente da pressão. O trabalho pode ficar para
depois do expediente normal, mas os amigos na mão.
O fato é que você se apaixonou por aquela apresentação do Steve Jobs no
lançamento do I-Phone, mas a diferença entre você e ele é de alguns milhões ou
bilhões de dólares. Ele ganha para escravizá-lo, mas você não ganha o suficiente
para se livrar da escravidão, portanto, o melhor a fazer é repensar a maneira de
utilizar os brinquedos eletrônicos. Dizer que você não vive sem eles é uma
desculpa muito simplória. O que fazer com eles, de maneira inteligente, sensata
e saudável, é o grande desafio. Quem clica, seus males multiplica, diz o ditado
na web.
Acredite, existe vida longe do micro, do celular e da Internet. Uma boa conversa
entre amigos, um passeio agradável com a família, um bom livro ou uma boa
caminhada ao ar livre provocam efeito mais positivo. Ficar ligado na tela do
micro esperando a próxima mensagem é tão prejudicial quanto sair de férias e
ligar todos os dias para os colegas de trabalho atrás das novidades. Pense nisso
e seja feliz!
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Marcos A F Franco
Quinta, 17 de Julho de 2008
Imaginem ver-se no mundo, sem pai ou sem mãe, imaginem ter nascido com alguma
deficiência física ou mental, o mínimo que fosse, imaginem ter passado fome,
imaginem não ter estudado, imaginem ter sido obrigado a pedir esmola, imaginem
ter passado frio e não ter dormido. Podemos imaginar muitas coisas, mas somente
quem vive, ou viveu essas adversidades, sabe realmente o que significa essa
exclusão do mundo normal.
A filantropia é uma palavra grega que significa "amor à humanidade" e só existe
quando alguém com recursos, financeiro, material ou através de ações, usa esses
recursos em favor de alguém, daqueles que não tiveram oportunidades de se
desenvolverem como seres humanos dignos.

Pequenas ações, como ajudar um cego a atravessar a rua, orientar um analfabeto,
ser voluntário em um hospital, comprar um convite para um jantar beneficente e
até um simples gesto de cortesia contribui para um mundo melhor e mais humano.
Todas as boas ações por menor e mais singelas que possam ser são fáceis e custam
pouco para quem as faz e, significam muito para quem as recebe.
O governo é muito lento e incapaz para atender a todas as demandas sociais.
Existem avanços, porém as necessidades são mais urgentes. As Ongs - organizações
não governamentais - estão crescendo e as empresas, detentoras da maior parte da
economia, estão começando a se conscientizar do seu papel e poder para
participar mais ativamente das necessidades sociais. Afinal, o mundo é global e
os problemas sociais inibem o desenvolvimento econômico.
Como cidadãos, oferecer aos outros nossa experiência e valor é sermos ativos.
Assim, contribuímos para o nosso desenvolvimento, afinal somos seres sociais e
necessitamos uns dos outros para nossa evolução.
A filantropia é a prática de doar aquilo que você tem sobrando para quem
necessita e sem que lhe faça falta. Praticar a filantropia é desenvolver o seu
semelhante, tornando melhor as nossas vidas.
Bill Gates, um dos homens mais famosos e ricos do mundo, também é um grande
filantropo. Ele declarou no ano passado que em breve deixará o comando de suas
empresas para se dedicar integralmente à filantropia.
Antonio Ermírio de Moraes, industrial e grande filantropo, doa seu tempo e
influência, há mais de 35 anos, na administração de um dos maiores hospitais da
América Latina, a Beneficência Portuguesa de São Paulo. Ele declarou em seu
livro - "Somos todos responsáveis: Isso é gratificante para as pessoas que
sentem a necessidade de exercer a sua responsabilidade social ajudando a
melhorar a vida dos mais necessitados".
Todos nós possuímos algo valioso, seja bem material ou não. De que forma podemos
doar nossos valores para quem necessita?
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Tom Coelho
Quarta, 28 de Maio de 2008
"Busque a alta qualidade, não a perfeição."
(H. Jackson Brown Jr.)
Você é encarregado de preparar um determinado projeto. Em verdade, você mesmo candidatou-se
a esta tarefa, pois conhece o assunto como poucos e está certo de que poderá contribuir
com sua equipe. Assim, bastariam algumas horas de transpiração diante da tela
do computador para produzir uma primeira versão do documento que seria apresentada
aos seus pares propiciando debates e a elaboração de uma versão posterior, mais
densa e melhor estruturada.
Todavia, seu nível pessoal de exigência impede-o de redigir uma proposta sem antes
promover todo um trabalho de pesquisa para embasar sua tese. Mas pesquisa demanda
tempo e o tempo é a matéria-prima mais escassa do mundo moderno. Passa-se uma semana,
duas, um mês. O projeto não sai de seu pensamento e não vai para o papel. Você se
angustia, perde o prazo e a credibilidade com seus colegas. E consigo mesmo.
O exemplo acima pode representar um projeto profissional. Pode também ilustrar
um trabalho acadêmico ou mesmo uma ação filantrópica. O fato é que em qualquer um
dos casos o desejo de fazer o ótimo dilacerou a possibilidade de fazer o bom. E,
no final das contas, nada foi concretizado, o que significa um resultado péssimo.
Convido você a fazer igual analogia com outros sonhos que já visitaram suas noites
em vigília. Livros que não foram escritos, músicas que não foram compostas, poesias
que não foram declamadas. Uma intervenção necessária durante uma reunião que foi
contida por falta de ousadia. Uma declaração de amor reprimida porque você ainda
não se sentia preparado.
Temos o mau hábito de esperar pelo mundo perfeito para tomar decisões. É como se
decidíssemos cruzar a pé uma movimentada auto-estrada apenas quando todos os veículos
parassem para permitir nossa passagem, sem a existência de qualquer sinalização
que os obrigasse a tal ação.
Enquanto buscamos e ansiamos por este mundo perfeito, outras pessoas fazem o que
é possível, com os recursos de que dispõem, dentro do tempo que lhes é concedido.
E não raro acabam sendo bem-sucedidas. Então, ao observarmos o conteúdo de suas
produções, colocamo-nos imediatamente a criticá-las, certos de que poderíamos ter
alcançado um resultado muito mais satisfatório. Nós pensamos; elas agiram.
Observe como muito pode ser feito usando de pouco tempo e de muita simplicidade.
Muitas vezes basta um telefonema de alguns minutos para dirimir uma dúvida, prestar
um esclarecimento, obter uma dilação de prazo. De igual maneira, um e-mail redigido
em uma fração de segundos pode aquietar o espírito de seu interlocutor e sepultar
o risco de um desentendimento. Agradecimentos, por sua vez, devem ser prestados
o quanto antes, ou tornam-se inócuos e desprovidos de sensibilidade.
Um livro pode ser escrito de uma só sentada ou capítulo a capítulo, dia após dia.
Uma música pode ser composta num guardanapo de papel na mesa de um bar ou nas bordas
de uma folha de jornal que repousa em seu colo dentro de um ônibus. Um poema pode
ser oferecido em meio a um jantar ou dentro de um elevador que se desloca do terceiro
piso para o subsolo.
O tempo certo para agir é agora. Não de qualquer jeito, não com mediocridade,
mas com o máximo empenho possível. Amanhã, como diriam os espanhóis, é sempre o
dia mais ocupado da semana.
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Wagner Campos
Segunda, 14 de Abril de 2008
Durante o século XVIII surgiram vários contos de fadas envolvendo animais. Entre
centenas de histórias, criou-se um conto representado por três porquinhos. Em
1933 a Disney reformulou o conto e tornou-o famoso em todo mundo, batizando cada
um dos porquinhos com um nome: Prático, Heitor e Cícero.
Conforme relata o conto, um belo dia os três porquinhos resolveram sair de onde
moravam e cada um combinou construir sua casa. Cícero era o porquinho menos
esforçado e relaxado, então construiu uma casinha de palha. Heitor queria um
pouco mais de conforto e aconchego e construiu uma casa de madeira. Já o
Prático, queria uma casa confortável, segura, resistente, durável e que
refletisse sua personalidade. O resto da história você já sabe. Vem o lobo mau,
assopra a casinha de palha e a derruba; o porquinho Cícero corre para a casa de
madeira de seu irmão Heitor, o lobo vai atrás, assopra-a e a destrói e os
porquinhos fogem para a casa de pedra do Prático. O lobo assopra, assopra,
assopra e não derruba a casa. Tenta entrar pela lareira e cai em um caldeirão de
água quente, fugindo assustado enquanto os porquinhos comemoram a vitória.
Em todas corporações podemos encontrar colaboradores que assumem papéis de
personagens semelhantes aos vividos pelos três porquinhos. Há aquele com o
perfil do porquinho Cícero, que ao resolver iniciar suas atividades não as
realiza com paixão e determinação, e muito menos as finaliza. Seu maior
interesse é em cumprir a carga horária, e não apresentar resultados ou
contribuir com estratégias criativas para a empresa. Encontra-se
constantemente tomando cafezinhos, batendo papo, fumando, navegando na Internet
com interesses particulares e quando questionado, apresenta seus relatórios
incompatíveis com a expectativa para sua função.
Quando percebe que sua segurança profissional torna-se abalada, corre em
direção de alguém que possa auxiliar para que complete sua atividade. Não em
direção de quem necessariamente o oriente, mas de quem literalmente faça o que
ele deveria ter feito. Vai atrás de alguém com o perfil do porquinho Heitor,
colaborador que realmente se dedica ao realizar suas atividades e cumpre
exatamente aquilo que foi orientado a fazer. Como um bom executor, é receptivo e
prestativo, ajudando muitas vezes os colaboradores com perfil do porquinho
Cícero, buscando inclusive encobrir a falha ou má vontade dele em razão da
amizade existente.
Para a sorte das corporações existem os colaboradores que vão além do mínimo ou
necessário. São aqueles que desenvolvem projetos, apresentam estratégias, buscam
melhorias constantes que possam contribuir para o resultado da empresa e também
de todos que atuam conjuntamente, muito além de apenas desempenharem atividades
para as quais foram contratados. Estes colaboradores são aqueles que possuem o
perfil do porquinho Prático. Não querem apenas construir um abrigo ou simples
casa. Não querem fazer igual ou o necessário, querem apresentar mais trabalho e
melhor, em menos tempo, com maior duração, com resultados expressivos e em
benefício de todos.
E porque os profissionais com as características dos porquinhos Cícero e Heitor
iriam solicitar auxílio ao profissional com o perfil do porquinho Prático? Pelo
mesmo motivo da história. Por causa do lobo mau! O lobo mau da concorrência,
da necessidade de redução de custos e de tempo, da exigência de inovação, do
desenvolvimento de novos produtos, novas campanhas e da melhoria da
competitividade.
Este lobo mau mercadológico vive faminto e não perdoa. Porquinho que não inova
vira lombo defumado no café da manhã. Porquinho que não reduz seus custos fica
com sua estrutura pesada, não consegue fugir e vira porquinho assado no almoço.
Porquinho que não melhora sua competitividade, não desenvolve campanhas e não se
demonstra preparado fica sem conseguir se diferenciar de outro e vira ensopado
no jantar.
Dificuldades à parte, somente com muito esforço, determinação e paixão pelo que
se faz, juntamente com muito profissionalismo é que se consegue conquistar mais
espaço e ampliar os horizontes.
Aquele hábito de ficar enrolando ou simplesmente executando o que ordenaram para
se fazer, tornando-se um "pau mandado", não é o melhor caminho e cedo ou tarde,
como na história, a casa cai. Perdoe-me o trocadilho, mas que tal então, ter um
perfil mais "prático"?
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Jerônimo Mendes
Segunda, 24 de Março de 2008
Há pouco tempo eu escrevi sobre esse assunto e confesso que de lá para cá minha percepção nada mudou sobre o atendimento prestado no comércio em geral, a despeito dos investimentos e políticas de treinamento desenvolvidas pelas empresas para melhorar o desempenho dos seus colaboradores.
Dia desses convidei minha esposa e meu filho mais velho para saborear uma pizza num estabelecimento perto de casa a fim de descontrairmos um pouco e, obviamente, nos livrarmos da louça do jantar que sempre sobra para os homens no fim-de-semana, por uma justa razão.
Jantar fora é uma maravilha, exceto quando nos apresentam o valor da conta, pois é quando a gente se dá conta de que o trabalho da esposa deveria ser triplamente recompensado se comparado ao preço que pagamos em qualquer restaurante, além de ser feito com muito mais carinho do que aquele prestado por funcionários mal-humorados que insistem em trabalhar com o público.
Logo sentamos à mesa e fomos atendidos rapidamente pela única garçonete disponível no local, cheia de dentes à mostra, pronta para sacar o nosso dinheiro na primeira pizza tamanho master que a gente pedisse. Como a decisão em família é um pouco mais lenta, fiz sinal para que aguardasse.
Diante da infinidade de opções disponíveis no cardápio e considerando as dificuldades de se chegar a um consenso familiar - um quer frango, outro quer romana, ninguém quer aliche, todo mundo quer palmito -, procurei me concentrar na imagem da pizza estampada na capa do cardápio que parecia dar água na boca só de olhar para o conjunto de recheio sobre aquela massa suculenta.
De olho na pizza, discutimos rapidamente sobre a possibilidade de pedir aquela mesmo, pois estávamos com o estômago nas costas e, a julgar pelo colorido da foto, não era preciso pedir outra. Mediante um sinal discreto chamei a garçonete outra vez, a qual compareceu sem titubear, disposta a realizar o primeiro pedido do dia, creio eu, com tanto sorriso nos lábios. Até aí tudo bem. Com um simples olhar de aprovação familiar realizei a sondagem inicial: - escuta, menina, essa pizza aqui da foto, bonita e suculenta, é isso tudo mesmo? Você recomenda?
Naturalmente, eu esperava uma resposta assertiva, mas para surpresa geral a garçonete olhou para o balcão a fim de checar se não estava sendo observada e em seguida se aproximou ainda mais da nossa mesa como se quisesse dizer ao pé-do-ouvido "não conta prá ninguém, mas vou dizer a verdade". Tomada de cuidados, disparou sem o mínimo constrangimento: - não quero dizer nada, não, mas isso aí é propaganda enganosa, não é isso tudo!
Caramba! Juro por tudo que é mais sagrado, quase caí duro no chão. Olhei para o meu filho e para minha esposa pensando se chamava o gerente, se levantava e procurava outro local ou se voltava para casa. Contudo, a fome gritou mais alto e decidimos pedir a preferida da família - palmito, presunto e queijo - para evitar conflitos depois de um comentário tão ordinário quanto aquele que quase nos roubou o apetite.
De acordo com o Relatório Fatores Condicionantes de Mortalidade das Empresas, divulgado pelo SEBRAE em 2004, praticamente 60% das micro, pequenas e médias empresas constituídas no Brasil não sobrevive ao quarto de ano de vida, por inúmeras razões, dentre as quais pode-se destacar: falta de planejamento, capital de giro, concorrência desleal e até mesmo falta de clientes.
Felizmente, ainda não encontrei um levantamento pormenorizado que inclua o péssimo atendimento e a deslealdade dos colaboradores como fator preponderante no desempenho ou no fechamento das empresas. Entretanto, desconheço, no meu círculo de relacionamentos, alguém que não tenha sido vítima do descaso alheio. Essa constatação me basta.
O sucesso de um empreendimento envolve uma série de questões que devem ser minuciosamente estudadas e planejadas, dentre elas o treinamento e a importância das pessoas na organização. Estratégia é importante, fluxo de caixa também, mas a dependência da boa vontade das pessoas requer atenção redobrada para evitar o apunhalamento voluntário e desleal por parte daqueles que deveriam cumprir o dever com o mínimo de respeito e consideração perante aquele que lhe provê o sustento.
Ninguém é obrigado a trabalhar em lugar algum se a atividade, por mais simples que possa parecer, não lhe provocar o mínimo de entusiasmo. O mundo dos negócios está repleto de vendedores desanimados, atendentes mal-educados, "caixas" mal-humorados e outros profissionais despreparados cuja maior satisfação é despejar a própria insatisfação sobre as pessoas que nada tem a ver com o problema.
Se você optar por ser um empreendedor ou exercer uma posição de liderança, lembre-se de uma verdade universal no mundo dos negócios: pessoas que não gostam do que fazem, dificilmente levarão o trabalho a sério. Portanto, ao contratá-las, seja simples, honesto e direto: enfatize a importância do trabalho a ser realizado; esclareça suas expectativas em relação ao desempenho das pessoas; dê-lhes treinamento e lhes deposite confiança; monitore o desempenho. E se tudo isso for em vão, livre-se dos ineficientes.
Tenha em mente que não é necessário esperar um, dois ou três anos para saber se um profissional é capaz de realizar o trabalho de acordo com as expectativas e as necessidades da empresa. As organizações levam anos para descobrir as fontes de ineficiência das pessoas e, por conta disso, alimentam uma triste ilusão corporativa que encerra com algo parecido como "você não tem perfil para trabalhar aqui".
Por experiência própria, penso que de três a seis meses é mais do que suficiente para conhecer o profissional contratado, portanto, se o resultado não for o esperado, não alimente expectativas desnecessárias nem prorrogue o sofrimento para ambos os lados. Seja firme, justo e elimine o problema antes de se aborrecer, falir ou ser demitido por conta da incompetência alheia.
Propaganda enganosa é também vender uma imagem no currículo ou na entrevista e, depois de contratado, agir completamente diferente. Aliás, mais do que propaganda enganosa, esse comportamento soa falta de integridade. Pense nisso e seja feliz.
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