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Como falar o que está engasgado

Sexta, 8 de Agosto de 2008
Para expressar o que sentimos sem prejudicar os relacionamentos com as pessoas próximas é fundamental ter uma postura mais questionadora sobre nós mesmos. Quase nunca consideramos que podemos estar errados quando discutimos, tentamos convencer alguém de nossas idéias ou que simplesmente podemos estar tentando fazer isso de forma inapropriada.

Aprender, entender, compreender e refletir sobre o processo da dinâmica do comportamento humano é fundamental. E um aspecto decisivo para melhorarmos nossos relacionamentos é a melhoria da nossa comunicação diária.

Diante de tantas situações distintas que enfrentamos com a comunicação no dia-a-dia, acabamos nos sentindo temerosos e inseguros. São muitas dúvidas sobre a como falar o que desejamos para sentir alívio e ao mesmo tempo não ser mal-interpretado e prejudicar o relacionamento com os outros.

Uma ferramenta poderosa para que possamos dizer coisas que ficam engasgadas e que sejam bem-aceitas pelos outros é a utilização correta do chamado feedback sanduíche. Essa prática consiste em começar um diálogo destacando o que a pessoa faz de bom. Primeiro, elogie algo positivo que ela tenha feito. Depois de elogiar, comece a abordar os pontos negativos, destacando as questões nas quais você gostaria que a pessoa melhorasse. Para encerrar a conversa, volte a dar ênfase em outros pontos positivos que você perceba no comportamento da pessoa.

Dessa forma, você pode perceber que os pontos negativos, que precisam ser melhorados e desenvolvidos, são o “recheio” da conversa. Mas esse recheio tem suporte positivo tanto no início quanto no final do diálogo, pois o princípio da natureza humana revela a ânsia de ser apreciado. Eu, você e todos a nossa volta, temos sede de reconhecimento, de nos sentirmos importantes. Através do feedback sanduíche encontramos pontos valiosos do outro, criamos uma abertura e construímos uma comunicação mais eficaz, tornado o diálogo mais agradável e leve, eliminando assim, algumas das principais causas de conflitos, tanto no ambiente profissional quanto pessoal.

Confira, a seguir, algumas dicas que podem ajudar a tornar ainda mais eficiente a utilização do feedback sanduíche para falar o que você deseja:

- Tenha um cuidado especial com as palavras. Um bom exemplo é a palavra crítica, que é utilizada com muita freqüência. Ela deve ser evitada na comunicação diária, pois cria uma barreira imediata no processo de comunicação. Algumas pessoas até tentam minimizar esse impacto negativo, utilizando a expressão: "posso fazer uma crítica construtiva?". Para evitar esse problema, utilize a palavra sugestão. Esse termo tem o poder de criar uma receptividade muito grande por parte do ouvinte.

- Existe um provérbio indiano que diz que "quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio." Além das palavras, existe um mundo infinito de nuances e prismas diferentes que geram energias ou estímulos que são percebidos e recebidos pelo outro. Um olhar ou um tom de voz um pouco diferente podem comunicar muito mais do que está contido em uma mensagem manifestada através das palavras. Talvez você não consiga e nem precise dar um abraço em uma pessoa, mas a forma como fala e olha já faz uma grande diferença.

- Preste mais atenção na linguagem não-verbal, pois raramente temos consciência de nossa entonação de voz, postura, movimentos e gestos. Essas ações, muitas vezes, podem estar contar uma história enquanto as palavras estão relatando outra. É importante salientar que em muitos casos, quando suas palavras não estiverem concordando com suas ações, seu ouvinte acreditará em suas ações.

Agora é com você! Não basta saber é preciso fazer . Experimente, permita, a decisão está em suas mãos, na sua mente e no seu coração.

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De Volta para o Futuro

Terça, 15 de Janeiro de 2008
Se você viu o filme "de volta para o futuro 2", certamente vai se lembrar de um almanaque que é entregue ao jovem Biff que dizia que 1997 o time da Flórida ganharia o campeonato nacional de baseball.

De acordo com o enredo do filme, a idéia - antes do Marty McFly - e em seguida apropriada por Biff, era, de posse do almanaque, realizar apostas esportivas uma vez que o mesmo já tinha as respostas em mãos.

O curioso, é que quando o filme foi escrito, a Flórida nem sequer possuía um time, mas o fato é que em 1997 o ganhador do campeonato nacional de baseball foi o time Florida Marlins.

Espantado? Pois bem, o que comumente chamamos de curiosidade ou mesmo coincidência, pode ser também conhecido como "profecia auto-realizável". Um fenômeno que reza que quanto mais as pessoas acreditam em uma coisa, mais elas podem influenciar na sua realização.

Á época do filme "de volta para o futuro", certamente a menção de um time da Flórida se transformar no ganhador do campeonato nacional de baseball se transformou em uma visão que cativou pessoas e angariou seguidores. A partir daí, as expectativas de que algo podia ocorrer (Um time da Flórida ganhar o campeonato) foram aumentando a possibilidade de ocorrência. Trata-se de uma cadeia de eventos que é muito comum observar, por exemplo, no mercado de capitais. Basta ver o que acontece quando surge um boato a respeito de dificuldades, perda de valor das ações ou mesmo problemas genéricos com determinada empresa de capital aberto; um rastilho de pólvora que começa com o efeito manada das pessoas, que correm para vender suas ações e diante deste movimento, várias dos "boatos" começam a se transformar em profecias auto-realizáveis.

Outro exemplo interessante surgiu também em Hollywood. No filme "O Demolidor", de 1993, o protagonista, interpretado por Silvéster Stallone, ao ser descongelado 70 anos no futuro, descobre uma biblioteca presidencial Schwarzenegger, fruto da ascensão do ator a casa Branca, devido a sua popularidade e sua incrível competência para resolver problemas demonstrada nos cinemas. O resto da história, ainda não sabemos como vai ficar, mas o fato é que o exterminador já é governador da Califórnia e pelo que sabemos, almeja a cadeira principal da Casa Branca, mas para isso acontecer a Constituição Americana terá que ser modificada, já que a lei só permite presidentes nascidos nos Estados Unidos. Mesmo sendo naturalizado norte-americano Schwarzenegger mantém nacionalidade Austríaca.

Pelo que conhecemos a respeito dos seus métodos demonstrados na TV, Barack Obama e Hillary Clinton que se cuidem.


A Profecia Auto Realizável nas Empresas
Nas empresas, a profecia auto realizável ocorre de diversas maneiras, como por exemplo, na relação entre líderes e liderados. Pois quando um líder tem poucas expectativas a respeito de determinado colaborador, mesmo inconscientemente, tratará aquele colaborador de uma forma diferente, e, esperando menos, receberá menos. Também quanto à capacidade e potencial de realização, a profecia auto realizável se mostra muito efetiva, pois quanto mais os colaboradores acreditam na empresa, mais a empresa demonstra sua capacidade de realizar o fruto das expectativas. O contrário é verdadeiro, se a pessoas tem uma expectativa ruim quanto ao futuro da empresa, suas atitudes podem corroborar esta percepção e criar este futuro negativo que já se previa.

Exemplos do poder da profecia auto realizável existem aos milhares, desde o caso da professora que obteve mudanças na performance e resultados dos alunos ao informar resultados de uma pesquisa de inteligência a diversos casos do exército.

No caso da professora, ela divulgou aos alunos que uma pesquisa comprovara que os alunos de olhos azuis possuíam mais inteligência que os alunos de olhos castanhos e a partir daí, os alunos de olhos castanhos definharam seu desempenho e tiveram uma redução significativas nos seus resultados. Posteriormente a professora informou que havia sido feito a uma nova pesquisa e que os resultados comprovaram que as pessoas de olhos castanhos eram mais inteligentes e a partir desta notícia, foram os alunos de olhos azuis que viram seu desempenho ser reduzido e seus resultados definharem. Ou seja, diante da informação a respeito de qual grupo era mais inteligente e qual grupo era menos inteligente, as expectativas foram construídas automaticamente e se obteve mais de quem se esperava mais e menos de quem menos se esperava.

No caso do exército, instrutores dos trainees foram informados a respeito dos alunos de maior potencial e dos quais se poderia esperar maior performance. Como esperado, estes alunos obtiveram os melhores resultados e ao serem questionados quanto à impressão a respeito da liderança, todos acharam que houve mais suporte, facilidade na interação, dedicação na instrução, foco na meta e facilidade no relacionamento de trabalho. Enfim, as expectativas que os instrutores tinham a respeito dos trainees (expectativas plantadas) resultaram em tratamentos diferentes que auxiliaram na construção dos resultados esperados.

Bom, se isso quer dizer que o futuro pode ser construído em parte a partir das minhas expectativas quanto ao mesmo, creio que eu posso ser meu próprio profeta e neste sentido, definir as profecias a meu próprio respeito.

Reflita sobre isso e Triunfe!

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Feedback - melhorar a partir do que o mundo nos ensina

Sexta, 10 de Agosto de 2007
Para crescer na vida, é preciso melhorar tanto os pontos fracos quanto as qualidades. O melhor caminho para isso é estar atento às informações que nos chegam.

Do radical feed, alimentar, e do radical back, voltar, o termo feedback pode ser considerado como uma resposta a algo feito, executado. É uma troca de informações, de pontos de vista, que podem ser interpretadas de uma forma positiva ou negativa.

Ninguém é completo ao ponto de não necessitar de aperfeiçoamento. Uma das características encontradas em grandes realizadores é a capacidade de visualizar suas fraquezas, na intenção de extingui-las. Ao reconhecer a própria vulnerabilidade, um realizador não se sente rebaixado ou incompetente. Pelo contrário: o profissional contribui decisivamente para a obtenção de um resultado melhor, tanto para ele quanto para o meio em que vive, refletindo também em seu ambiente de trabalho.

Saber receber feedbacks é essencial. É um exercício de humildade que vale a pena. Para quem consegue aproveitá-los, eles se tornam um grande meio de aprendizado, além de uma ótima fonte de correção de rumo. Ver a mesma situação por um ponto de vista novo faz uma grande diferença.

Da mesma forma, saber transmitir a opinião sobre o desempenho alheio é um ponto-chave para qualquer profissional que possui a incumbência de liderar equipes. Para que o feedback não seja interpretado como uma crítica, mas sim como um apoio eficaz na conquista para melhores habilidades, alguns pontos devem ser considerados, como: ser descritivo, e não avaliativo; ser específico, e não generalizado; ser compatível com as necessidades de ambas as partes, sem exaltar a importância do comunicador, e diminuir o receptor; ser solicitado, e não imposto; além de transmitir as informações com clareza e no menor tempo possível.

Para quebrar a resistência natural de quem está sendo analisado, é aconselhável começar sempre por aspectos positivos para depois dizer em que a pessoa pode melhorar. Além disso, é fundamental criar uma atmosfera apropriada, dedicando atenção total àquele momento, sem interrupções por telefone ou por pessoas que entrem na sala.

Qualquer profissional precisa receber feedbacks para aprender constantemente e, com isso, expandir a zona de conhecimento. Eles também podem ser considerados um alarme: quando recebidos de modo negativo, aliados a resultados menos expressivos, é sinal de que algo precisa ser feito.

À medida que alguém expande sua visão do mundo, passa a esperar das pessoas o que elas podem oferecer e leva os outros a agir da mesma forma. Por isso, é importante para executivos, empresários, empreendedores e profissionais de qualquer área criar um ambiente de reflexão, para que consigam absorver opiniões e pontos de vista enriquecedores. Em um ambiente assim as respostas para as mais importantes perguntas estarão sempre no ar: basta captá-las. Não por acaso, feedback é um termo emprestado da eletrônica que significa "retroalimentação" - ou seja, manter algo funcionando por suas próprias forças.

Luiz Fernando Garcia - é consultor especialista em manejo comportamental e empreendedorismo em negócios. É metodologista, empresário, palestrante e autor dos livros "Pessoas de Resultado" e "Gente que faz", da Editora Gente.

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Semiótica

Quinta, 31 de Maio de 2007
A pretensão de apresentar a Semiótica em poucas linhas pode ter resultado em reprováveis simplificações. Um campo de conhecimento tão amplo e complexo exige certamente um espaço-tempo maior que o presente, motivo pelo qual este alerta introdutório faz-se necessário. Isto posto, nada mais adequado que procurar partir de questões centrais, indispensáveis para delinear um mapa hipertextual que permita uma orientação de novos navegantes pelos mares da assim definida ciência dos signos ou processos de significação.

Segundo Winfried Nöth (1995:19)"a semiótica é a ciência dos signos e dos processos significativos (semiose) na natureza e na cultura". A investigação semiótica abrange virtualmente todas as áreas do conhecimento envolvidas com as linguagens ou sistemas de significação, tais como a lingüística (linguagem verbal), a matemática (linguagem dos números), a biologia (linguagem da vida), o direito (linguagem das leis), as artes (linguagem estética) etc. Para Lúcia Santaella, ela "é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis" (1983:15).

Sua principal utilidade é possibilitar a descrição e análise da dimensão representativa (estruturação sígnica) de objetos, processos ou fenômenos em categorias ou classes organizadas. Como ela faz isso? De formas tão diversas que, neste momento, vale a pena um rápido passeio pelas ...

Origens da Semiótica

Muito antes que o termo "semiótica" fosse utilizado, já encontramos investigações a respeito dos signos. Tais origens se confundem com as da própria filosofia: Platão já se preocupou em definir o signo em seus diálogos sobre a linguagem. No séc. XVII, John Locke "postulou uma 'doutrina dos signos' com o nome de Semeiotiké" e, em 1764, Johann H. Lambert escreveu "um tratado específico intitulado Semiotik" (Nöth, 1995:20). O termo deriva etimologicamente do grego semeîon (signo) e sema (sinal), tendo originado diversos termos tais como semeiotica, semeiologia, sematologia, semologia etc. No entanto, só em 1964 é que Thomas Sebeok publicou uma coletânea chamada Approaches to semiotics, dando à palavra a forma plural que, no inglês, caracteriza a denominação de uma ciência.

Tal preocupação etimológica visa, além de elucidar o processo diacrônico sofrido pelo termo, abrir espaço para discutir duas grandes correntes do Século XX no campo do estudo dos signos: a semiologia e a semiótica. Embora ao final dos anos 60 tenha sido adotada a palavra "semiótica como termo geral do território de investigações nas tradições da semiologia e da semiótica geral" (Nöth, 1995:26), ainda hoje encontramos inclinações determinadas pelo que podemos chamar de ...

A Disputa do Século

Em paralelo com o desenvolvimento da "corrente semiótica" - inspirada na obra de Charles Sanders Peirce (1839-1914) - nasce no esteio do Curso de Lingüística Geral (1916) de Ferdinand de Saussure a semiologia como ciência geral dos signos. Para ser mais preciso, surgirão realmente duas correntes de estudos semióticos cuja preocupação com o signo é inferior à dos textos propriamente ditos e das estruturas menores dos signos verbais (semas, sememas, lexemas etc.): são elas a Semiótica Narrativa do Discurso (francesa) e a Semiótica da Cultura (russa). O que essas linhagens apresentam em comum são o enraizamento lingüístico e o caráter diádico de suas categorizações e classificações.

A semiótica peirceana apóia-se, como o semeîon platônico e o aristotélico, num esquema triádico, ao passo que a semiologia pós-saussureana vê o signo de forma dual. A posição da ciência do signo no conjunto com as demais ciências é outra divergência entre as duas correntes: a semiótica surge como uma "filosofia científica da linguagem" (Santaella, idem, 28) enquanto a semiologia é proposta inicialmente por Saussure como um ramo da psicologia social - a englobar a própria lingüística como um de seus ramos (Nöth, 1996:19)-, para a seguir sofrer uma tentativa de inversão quando Barthes sugere que a semiologia é que deveria ser um ramo da lingüística (Barthes, 1988:13).

Semioticistas e semiologistas entabulam uma disputa que leva cada lado a criar suas próprias definições para os termos semiótica e semiologia. Para os primeiros - majoritariamente de origem anglo-saxônica - a semiologia é tida como a ciência dos signos especificamente criados pelos homens, menos abrangente, portanto, que a semiótica. Para os semiologistas - geralmente oriundos de países românicos - "a semiótica é um sistema de signos com estruturas hierárquicas análogas à linguagem - tal como uma língua, um código de trânsito, arte, música ou literatura - ao passo que semiologia é a teoria geral, a metalíngua (...), que trata dos aspectos semióticos comuns a todos os sistemas semióticos" (Nöth, 1995:25-26).

A importância deste debate situa-se em explicitar ao leitor nossa opção pela semiótica pós-estruturalista, de inspiração peirceana, de Umberto Eco e Thomas Sebeok. As características que melhor diferenciam a corrente peirceana das demais é sua preocupação central com o signo, seu conceito triádico de signo (e não diádico, como as outras), sua fenomenologia supra-lingüística e a dinamicidade radical do processo semiósico.

Falemos, portanto e finalmente, dos ...

Conceitos básicos de uma semiótica pós-estruturalista

Para iniciar uma possível resposta à nossa questão pendente - apenas lembrando: como a semiótica pode ser útil para analisar os signos - impõe-se agora um maior detalhamento dos seus conceitos fundantes na obra de Peirce, suporte básico da semiótica pós-estruturalista.

Para este pensador, um signo é "algo que, sob certo aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa para alguém" (Peirce, 1972:94, grifo nosso). Essa perspectiva triádica se multiplica profusamente na obra peirceana, motivo pelo qual pode ser fruto de uma...

Triadomania

A eleição das "trindades" como suportes classificatórios e categorizadores, é óbvio, antecede em milênios a obra peirceana, bastando lembrar Platão ou o catolicismo. Seja uma obsessão sua ou não (como ele mesmo admite), devemos nos lembrar que toda teoria procura reduzir, em maior ou menor grau, a multiplicidade e complexidade universais em um todo ordenado, que faça sentido. Neste sentido, a filosofia peirceana vai entender a realidade de forma pansemiótica - isto é, tudo como semioticamente analisável - e classificável fenomenologicamente segundo três categorias:

primeiridade - categoria do "desprevenido", da primeira impressão ou sentimento (feeling) que recebemos das coisas;
secundidade - categoria do relacionamento direto, do embate (struggle) de um fenômeno de primeiridade com outro, englobando a experiência analogística e
terceiridade - categoria de inter-relação de triplo termo; interconexão de dois fenômenos em direção a uma síntese, lei, regularidade, convenção, continuidade etc.
As qualidades puras, imediatamente sentidas, são típicas da primeiridade. As relações diádicas, analítico-comparativas, são exemplos de secundidade. As palavras, por se remeterem a algo para alguém, são fenômenos de terceiridade. Para que passemos agora da filosofia à semiótica, detalhemos melhor ...


O Signo peirceano e as tricotomias

O signo - que nesse universo vai do desenho infantil até o mais rigoroso tratado de lógica, incluindo o homem que os produz como um signo também - é concebido como uma tríade formada pelo representamen - aquilo que funciona como signo para quem o percebe -, pelo objeto - aquilo que é referido pelo signo - e pelo interpretante - o efeito do signo naquele (ou naquilo, podendo-se aí incluir os seres ou dispositivos comunicativos inumanos como os computadores) que o interpreta. Vale lembrar com Merrell (1998:49) que não devemos pressupor que o signo e seu objeto "são sempre entidades concretas - espaço-temporais - ou até objetos físicos. Peirce sempre cuidava para evitar esse erro". Em muitos casos podemos experimentar a concretude de signos, objetos e representamina embora em outros eles careçam de qualquer materialidade. Exemplo disso pode ser o signo "Pégasus", escrito nessa página. Embora ele esteja materialmente representado aqui, dele derivará na mente do leitor (com certeza quase absoluta) um signo mental de "cavalo alado" cujas partes e objeto referido carecem de concretude. Ainda assim, é inegável que no exemplo dado algo representou alguma coisa para alguém, o que atende plenamente à definição de signo. Passemos então a uma melhor definição das partes que o compõem:

O representamen é o sustentáculo de um signo ou aquilo que funciona como signo, remetendo a algo para um interpretante. É através dele que o signo se remete por alguma causa (seja a semelhança, indicação ou convenção) a um objeto.

Este objeto exterior ao signo, chamado de objeto dinâmico, é "espelhado" no interior do signo, "imagem" esta que se denomina objeto imediato.

Se encontramos duas facetas para o objeto (o objeto dinâmico e o imediato), para o interpretante (que muita gente confunde com um indivíduo, quando na verdade trata-se mais do resultado interpretativo em si mesmo) vamos encontrar três. A capacidade de um signo produzir algo numa mente qualquer, isto é, seu total potencial sígnico, é o interpretante imediato. Para que se dê um processo de semiose é necessário que esse potencial se realize, sempre parcial e singularmente, na mente de alguém ou de um dispositivo interpretativo, ou seja que se realize um interpretante dinâmico. Quando esse interpretante dinâmico atinge a terceiridade, isto é, quando engendra uma interpretação simbólica, caracteriza-se um novo signo "de caráter lógico [...] que Peirce chama de interpretante em si" (Santaella, 1983:82). Embora a composição de um signo não seja linearizável, propomos o esquema abaixo para facilitar a sua compreensão:

REPRESENTAMEN
suporte ou fundamento (material ou mental) do signo

OBJETO IMEDIATO
objeto dentro do signo ("especular")

OBJETO DINÂMICO
objeto fora do signo (referido)

INTERPRETANTE IMEDIATO
potencial de interpretações

INTERPRETANTE DINÂMICO
singularização do interpretante

INTERPRETANTE EM SI
novo signo (representamen) na mente

O processo de apreensão de um signo é chamado de semiose. Ela envolve um movimento espiralado, na medida em que toda apreensão sígnica pode tornar-se o reinício de uma nova semiose.

Para melhor compreender os tipos de signo segundo suas características referenciais e fenomenológicas, Peirce desenvolveu classes ou categorias, organizadas em tricotomias (taxonomias tríadicas).

A primeira tricotomia organiza os signos segundo as características do próprio signo, isto é, do representamen. O representamen foi dividido nas categorias de quali-signo, sin-signo e legi-signo. O quali-signo é uma qualidade sígnica, imediata, tal como a impressão causada por uma cor. É, na verdade, um pré-signo ou uma ante-materialidade sígnica de um signo. Tal qualidade apresentada num concreto qualquer, isto é singularizada ou individualizada, é já um sin-signo. Um sin-signo, por sua vez, pode gerar uma idéia universalizada - uma convenção substitutiva do conjunto que a singularidade representa - sendo assim um legi-signo.

Da relação entre o representamen e o objeto advém a segunda e mais importante tricotomia, no entender de Peirce: ícone, índice e símbolo. O ícone, de forma semelhante ao quali-signo, representa apenas uma parte da semiose na qual o representamen evidencia um ou mais aspectos qualitativos do objeto. Os retratos ilustram bem essa categoria. A iconicidade de um signo funda-se no que Nöth chama de "homologias estruturais", isto é, na semelhança entre representamen e objeto.

Se há uma relação direta entre estas duas partes do signo sem no entanto tratar-se de similaridade, falamos já da categoria dos índices. Uma nuvem escura pode significar chuva, embora sejam muito diferentes uma da outra. As relações orgânicas de causalidade são típicas dessa categoria, onde o representamen indica (para) o objeto. Outra característica dos índices é sua singularidade, o que na linguagem seria exemplificado pelos nomes próprios.

O nome de um objeto qualquer - "cadeira" por exemplo - refere-se não só a uma cadeira em particular ("esta cadeira", por exemplo, seria um índice) mas a uma idéia geral de "objeto composto de um assento sustentado a uma determinada distância do solo através de um ou mais pés e um encosto fixado angularmente em relação ao assento". Por este motivo, transcende a secundidade indiciática em direção à categoria simbólica. Os símbolos são arbitrários, no sentido de que são socialmente convencionados e mutáveis (cadeira no Brasil, chair na Inglaterra e chaise na França), mas não absolutamente acidentais ou arbitrárias - haja vista as homologias já descobertas entre as mais diversas línguas do planeta e a impossibilidade de alteração individual desses signos. Os tipos, generalidades e idéias são signos simbólicos pois não se restringem à singularidade. Ao contrário, abrem-se à multiplicidade e universalidade por seu alto grau de abstração. É claro que cada repetição da palavra cadeira neste texto apresenta-se singularmente. No entanto, Peirce denomina cada singularização de um símbolo como réplica do tipo original.

Analisemos, a título de exemplo dessas duas primeiras tricotomias, algumas características do signo abaixo:


Quanto à primeira tricotomia: este, como todo e qualquer outro signo, é qualissígnico na medida em que apresenta cores e formas a serem percebidas como algo (representamen). A imagem produzida pelos pixels de luz de seu monitor (ou da tinta no papel, no caso de versão impressa) é sinsígnica enquanto exemplar único (no seu computador ou papel). Se esse representamen for capaz de significar não apenas uma imagem específica de cruzes em cemitérios, mas todas as cruzes de qualquer cemitério, torna-se então um legi-signo. Como se pode ver, um signo pode acumular categorias dependendo da forma como ocorre o processo de semiose.

Quanto à segunda: essa foto representa uma cruz num cemitério por semelhança. A palavra "cruz", por exemplo, não se assemelha em nada ao objeto representado na foto. Já a foto, certamente, é um ícone por essa relação de similaridade entre representamen e objeto. Por outro lado, essa é uma imagem escaneada de uma foto que foi revelada de um filme batido no cemitério de Carinhanha-BA (uma das cidades mais importantes da região de Carinhanha-BA). Ainda que de forma mediata, há uma relação física (indicial) entre o objeto e o representamen (já que uma série de fótons foram refletidos pelo objeto representado no filme (negativo), que sofreu o processo físico de revelação e ampliação (positivo) que, por sua vez, foi escaneado também por meios físicos até se tornar essa imagem que você vê). A imagem, assim, indica a existência material de um cemitério em Carinhanha-BA (como você já deve estar desconfiando, eu nasci em Carinhanha). Além de índice, essa imagem da cruz pode significar uma característica da religião do morto: trata-se de um suposto cristão. A cruz da foto pode representar para alguém a própria doutrina cristã, tornando-se nesse caso específico um símbolo, isto é, uma representação abstrata, convencional, de algo. De novo encontramos a riqueza combinatória e interpretativa das categorias peirceanas.

A mais complexa e racional categorização dos signos - a terceira tricotomia - refere-se à relação entre representamen e interpretante, donde emergem o rema, o dicente e o argumento. A categoria remática engloba o que na lógica formal se chama de termo, isto é, um enunciado impassível de averiguação de verdade, descritivo como um nome ou palavra. A palavra "cruz", isolada e fora de qualquer contexto, é certamente um rema.

Caso faça parte de uma assertiva qualquer, classifica-se como dicente (ou dicissigno). Ao contrário do rema, o dicente parece pedir confirmação de veracidade: "essa cruz representada na foto está colocada sobre o túmulo do meu avô", "meu carro é azul-vandyke" ou "o nosso salário está alto demais". O dicente, enquanto secundidade e dialogicidade, é altamente informativo - ainda que exija averiguação, na medida em que não fornece os motivos pelos quais afirma algo.

Se fornecesse, já não seria dicente, mas argumento. Enunciados encadeados de forma a evidenciar a condição de verdade de uma conclusão, ou seja, discursos de caráter persuasivo ou silogismos formais, são exemplos de argumentos. Por exemplo: "a cruz da foto acima está colocada sobre o túmulo do meu avô porque a probabilidade de haverem escrito o seu nome, Sebastião dos Santos Farias, sobre um túmulo errado é deveras reduzida, especialmente considerando-se que o índice de mortalidade em Carinhanha dificilmente ultrapassa o de um morto por dia (já que a cidade conta com menos de 5000 habitantes) e, além disso, no dia do enterro de meu avô ninguém mais foi enterrado, excluindo-se assim a possibilidade de troca ou engano de túmulo". Esse foi um argumento (dedutivo e, devo confessar, pouco elegante quando comparado aos exemplos de Aristóteles ou Peirce).

Como lógico, Peirce se preocupa em classificar os argumentos e verificar sua condição de verdade. Ao lado das já conhecidas dedução e indução, identifica uma terceira operação lógica criativa (ainda que arriscada) chamada abdução. Se a dedução parte do geral para o particular e a indução percorre o caminho oposto, a abdução - também chamada, algumas vezes, de hipótese - afirma um caso a partir de uma regra e de um resultado. Assim temos:

"Dedução

Regra: todos os feijões deste pacote são brancos.
Caso: estes feijões são deste pacote.

\ resultado: estes feijões são brancos.

Indução

Caso: estes feijões são deste pacote.
Resultado: estes feijões são brancos.

\ regra: todos os feijões deste pacote são brancos.

Hipótese

Regra: todos os feijões deste pacote são brancos.
Resultado: estes feijões são brancos.

\ caso: estes feijões são deste pacote." (Peirce, 1972, 149-150)

Os argumentos dedutivos exigem um alto grau de informação, e portanto de esforço, para chegarem a pouco mais do que tautologias. E mesmo para esse pouco, estão já a fazer uso da indução. O alto grau de risco da indução, por sua vez, pede ao pesquisador criativo que o leve mais longe, que produza através da abdução, novas possibilidades de conhecimento, especialmente através de um resgate do uso de nossa capacidade intuitiva. Especialmente quando se trata de seu uso nas ciências ditas "humanas". A preocupação obsessiva com o método pode levar, como é bastante comum, a abordagens quantitativistas inadequadas para determinados "objetos" de pesquisa. De nossa parte, alertamos para o fato de que as propostas classificatórias semióticas exigem-nos o cotejo contextual, já que nenhum signo tem existência per si ou a priori, mas sempre relativamente a tal contexto.

Frente à complexidade de cada uma das tricotomias até aqui estudadas e tendo em vista um processo inverso de remontagem pós-esquartejante, Peirce propõe que do seu entrecruzamento combinatório resultariam não 27 (3 x 3 x 3 tricotomias), nem 45 (as 27 com os argumentos multiplicados por 3), mas 10 classes possíveis de existência de signos (Peirce, 1972:110). Estas combinações excluem, por insuficiência lógica/ontológica, categorias como quali-signos não icônicos, sin-signos simbólicos etc. São elas as ...

Dez classes trilegais, tchê: as combinações tricotômicas

Ainda que não tenhamos certeza de que os gaúchos tenham se inspirado em Peirce ao cunhar esta gíria, consideramos trilegais essas classes por permitirem que, ao olharmos para um determinado objeto de investigação, consigamos verificar como ele se compõe e articula. Uma inocente home-page internetiana pode esconder, por trás de fontes iconicamente curvilíneas, uma apologia a símbolos ciber-sensuais subliminares para o olho não conscientemente semiótico. Esse exemplo pode ser aprofundado através do conhecimento e aplicação da classificação combinatória dos três componentes básicos do signo, como segue (Nöth, 1995:93-94):

Quali-signo icônico remático: "é uma qualidade que é um signo". Ex.: sensação do vermelho.
Sin-signo icônico remático: "é um objeto particular e real que, pelas suas próprias qualidade, evoca a idéia de um outro objeto". Ex.: diagrama dos circuitos numa máquina particular.
Sin-signo indicial remático: "dirige a atenção a um objeto determinado pela sua própria presença" Ex.: grito de dor.
Sin-signo indicial dicente: além de ser diretamente afetado por seu objeto, "é capaz de dar informações sobre esse objeto". Ex.: cata-vento.
Legi-signo icônico remático: "ícone interpretado como lei". Ex.: diagrama num manual.
Legi-signo indicial remático: "lei geral 'que requer que cada um de seus casos seja realmente afetado por seu objeto, de tal modo que simplesmente atraia a atenção para esse objeto'"(Peirce). Ex.: pronome demonstrativo.
Legi-signo indicial dicente: "lei geral afetada por um objeto real, de tal modo que forneça informação definida a respeito desse objeto". Ex.: placa de trânsito.
Legi-signo simbólico remático: "signo convencional que ainda não tem o caráter de uma proposição". Ex.: dicionário.
Legi-signo simbólico dicente: "combina símbolos remáticos em uma proposição, sendo, portanto, qualquer proposição completa". Ex.: qualquer proposição completa.
Legi-signo simbólico argumento: "signo do discurso racional". Ex.: silogismo.
quali-signo ícone rema
sin-signo índice dicente
legi-signo símbolo argumento

É importante contextualizar todas essas classes e categorias no universo lógico peirceano, diverso do formalista aristotélico e do positivista-mecanicista. Ainda que para todos a lógica seja "a ciência formal das condições de verdade das representações", em Peirce enfatiza-se a limitação científica do tratamento do que deve ser e não do que é. Por este motivo, a semiótica não se confunde com uma ontologia, sendo melhor definida como ciência que estuda o real semiótico, isto é, o mundo das representações ou da linguagem. Mas, se como já sugerimos anteriormente, a ciência dos signos é uma ferramenta de grande utilidade, será que ela é disponibilizada com um ...

Manual de Instruções?

Por ter nascido num berço pragmaticista, muitos esperam que a semiótica venha com um manual de aplicação - e, de quebra, garantia de um ano após a aquisição - o que de fato não ocorre. As "ferramentas" da ciência dos signos se mostram úteis nos mais diversos campos de investigação justamente por sua abertura e amplitude. Mais do que descrever em quais classes ou categorias se inscrevem os signos, a semiótica permite a compreensão do jogo complexo de relações que se estabelecem numa semiose ou num sistema delas. Ao ordenar esse conjunto de relações, podemos antever o seu significado e aplicabilidade no mundo da(s) linguagem(ns). É nesse processo que os dados da realidade podem ganhar o status de informação, conhecimento e, em alguns casos, sabedoria.

O máximo que podemos fazer, neste sentido, é sugerir a leitura das análises apresentadas n'O Signo de Três, organizadas por Umberto Eco e Thomas Sebeok, no capítulo IV do Panorama da Semiótica de Winfried Nöth, no Conceito de Texto de Umberto Eco e em minha análise semiótica do filme "Couraçado Potemkin" (www.geocities.com/Eureka/8979/potemkin.htm). Os "surfistas da Internet" que me perdoem, mas daqui por diante abre-se o caminho para, abandonando a prancha até aqui utilizada, o mergulho dos interessados por essa poderosa ciência de compreensão do real semiótico.

E está, para o que nos propomos, de bom tamanho!

Bibliografia

BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo, Cultrix, 1988.
ECO, Umberto e SEBEOK, Thomas (org.). O Signo de Três. São Paulo, Perspectiva, 1991.
ECO, Umberto. Conceito de Texto.
MERRELL, Floyd. Introducción a la Semiótica de C. S. Peirce. Maracaibo-Venezuela, Universidad del Zulia, 1998.
NÖTH, Winfried. A Semiótica no Século XX. São Paulo, Annablume, 1996.
NÖTH, Winfried. Panorama da Semiótica: De Platão a Peirce. São Paulo, Annablume, 1995.
PEIRCE, Charles S. Semiótica e Filosofia. São Paulo, Cultrix, 1972.
PEIRCE, Charles S. Semiótica. São Paulo, Perspectiva, 1987.
SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo, Brasiliense, 1983.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. São Paulo, Cultrix, 1988.

O Prof. Eufrasio Prates é Compositor Musical pela FAAM-SP-Faculdade de Artes Alcântara Machado e Mestre em Comunicação pela UnB, autor do livro "Passeio-relâmpago pelas idéias estéticas ocidentais" e ministra as disciplinas de "Teorias de Comunicação" e "Estética e Indústria Cultural" no IESB-Instituto de Educação Superior de Brasília. É também Diretor-Administrativo da ABSB-Associação Brasileira de Comunicação e Semiótica e Vice-Coordenador do NTC-Brasília-Centro de Estudos e Pesquisas em Novas Tecnologias, Comunicação e Cultura.
e-mail: eufrasioprates@usa.net

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Entre a Comunicação e a Semiótica, o Mundo

Quinta, 31 de Maio de 2007
1.Ciência e ciências

Objetividade e exaustividade constituem, há séculos, patrimônio e reivindicação das ciências exatas e aceitas. Desde o Iluminismo de Descartes exige-se da ciência que seja isenta de irregularidades e infensa a descontroles, seja reprodutível e acumulável na sua reiteração da verdade e explicação do universo a fim de, como certeza, ser capaz de repelir a dúvida, a desordem e, sobretudo, a instabilidade do mundo. Assim, a ciência deve repetir-se para solidificar-se enquanto crença e paradigma de uma comunidade. A força desse elo é inegável e, só como conseqüência dela, entendemos a importância de autores como Kuhn (1975) que realça o abalo da arquitetura científica ante a emergência de uma anomalia imprevista ou como Popper(1999) que, implacavelmente, colocou em ação o fantasma que corrói toda a crença científica, a falseabilidade .

Porém, esse indispensável "acordo de opiniões" (Peirce-C.P- 5.358-377) sofre tensões conforme se passe do parâmetro das ciências exatas para as ciências humanas e sociais e isso equivale a dizer que aqueles paradigmas de objetividade e exaustividade não se mantém ao passarmos de um bloco científico para outro. Sob essas tensões, várias questões se escondem. Seria possível atribuir qualificação científica para o estudo da sociedade e dos seus impasses? Como o social se submete àquele paradigma de objetividade que programa sua interpretação legítima? O paradigma de cientificidade seria capaz de inibir e constranger a dinâmica realidade social à certeza da interpretação a priori? É necessário aceitar que o estatuto científico do social depende de sua condição de ser inteligível, interpretável e, sobretudo, controlável por um sistema de ordem estabelecido ou coloca-se em questão a separação entre as ciências e a complexidade social? Submeter a certeza científica à vacilação, à mudança e à ambigüidade do social nos levaria a admitir a emergência de uma ciência impura ou menos ideal?

Nascida no século XIX, a jovem ciência social perfilou-se ao lado das ciências exatas e, para justificar sua credencial científica, foi compelida a tratar o homem e a sociedade, seus objetos fundamentais, como domínios controláveis, ordenados e dedutíveis teoricamente. Essa foi a meta que marcou as ciências humanas e sociais em busca da sua respeitabilidade científica. Ordenar, controlar, empiricizar, explicar, prever eram os verbos que pareciam nortear as ciências humanas e sociais no seu empenho para tornar-se científica. Não por acaso, o positivismo surgido no auge do século XIX e no cerne da sociologia de Augusto Conte, será um modelo de grande influência até o século XX em todos os redutos científicos que têm o homem e a sociedade como objetos de estudo.

Porém, como submeter a consciência e a liberdade humanas à análise e à síntese definitivas? Como fazer para transformar a mudança social, as mentalidades em suas sincronias de longa duração e todas as instabilidades do mundo e do homem em objetos científicos? Essas questões merecem ser objeto de reflexão, pois constituem o desafio enfrentado pelo século XX. Nesse sentido são conhecidos os esforços que se tornaram evidentes em posições como o relativismo, o historicismo, o materialismo ou o estruturalismo para permitir que os fenômenos humanos fossem objetos científicos com epistemologias e metodologias próprias.

Entendendo-se como ciência social, a comunicação é vítima da mesma sedução cientificista, porém, entre todas as manifestações do humano como objeto de estudo, a mais ambígua e frágil na sua definição científica é a comunicação.

2. A transparência social

A ambigüidade científica da comunicação decorre da sua dimensão múltipla ou da sua falta de unidade. Se admitirmos que a comunicação investiga as relações humanas, veremos que elas se ampliam e distendem de esferas rudimentares até outras muito complexas. Embora, não se dispense emissão, processos e recepção através de códigos e signos, pode-se distinguir entre eles manifestações físicas, químicas ou biológicas que se processa entre organismos humanos e sociais até, outros, inumanos e tecnológicos. De todo modo e em todos estes níveis, o objeto da comunicação carece de unidade e definição e se torna tanto mais ambíguo e instável quanto mais se amplia porque, na verdade, os estudos da comunicação atingem todas as relações entre homens e homens, homens e instituições, homens e máquinas e máquinas e máquinas:

"Não seria concebível uma sociologia como ciência e mesmo tendencialmente como previsão de grandes comportamentos coletivos, ou ainda somente como tipologia das diferenças destes comportamentos, não apenas se não subsistisse a possibilidade de recolher informações necessárias ( que supõem, portanto, um certo modo de comunicação), mas, antes de mais, sem que alguma coisa como um comportamento coletivo se possa determinar como fato; uma possibilidade que se torna efetiva apenas num mundo em que a comunicação social superou certos níveis.........As ciências humanas são, ao mesmo tempo, efeito e meio de ulterior desenvolvimento da sociedade da comunicação generalizada." (Vattimo.1992:19,20,21)

Da Galáxia de Gutenberg à mídia digital, da supremacia do código verbal às contemporâneas tecnologias da informação, passamos por dimensões culturais e sociais atrás das quais a comunicação esconde-se ou ultrapassa-se. Entre elas a imagem assume o caráter matriz do próprio conceito de modernidade e constitui sedução social a enredar os homens e a atingi-los em todas as direções. Nesse devaneio, as próprias ciências exatas transformam a imagem em fim em si mesma, e se esquecem de que aquela eficiência projetiva e tecnológica é um meio para atingir o rigor científico que as identifica como ciência e que perseguem a todo custo.

A comunicação se ultrapassa e se esconde. Ou seja, entende-se que a comunicação é um reflexo do social e admite-se que as relações humanas caracterizam-se por uma transparência e obviedade capaz de ser esgotada no seu reflexo comunicativo. Assim, estudar o social é conferir sua extensão ou reflexo comunicativo e vice-versa. Todo estudo do social é uma indagação sobre sua característica comunicativa. Nessa extensão, a comunicação tem uma dimensão invasiva que a transforma em objeto de várias áreas das ciências humanas.

Essa capacidade de mútua reflexão que se processa entre relações sociais e comunicativas constitui um pesado fardo para a atividade científica. Se, de um lado, torna ambiguo o objeto a ponto de a relação comunicativa ser objeto de investigação das demais ciências sociais e desqualificando-se enquanto identidade científica, de outro lado, transforma-a em ciência instrumental através da qual é possível interferir nas próprias relações sociais. Nessa segunda dimensão, a comunicação assume um caráter utilitário e passa a ser forma de controle social. Porém, se esse controle for interpretado com sinal negativo, a comunicação será uma forma de manipulação social o que, na verdade, tem sido explorado por todas as práticas de indução persuasiva que vão da publicidade à política.

Com efeito, embora superando a distinta dimensão epistemológica que o caracteriza, Habermas(1973) propõe a possível e desejável dimensão organizativa da comunicação no cerne das relações sociais, mas trata-se sempre de posição interpretativa produzida no âmbito teórico de outras ciências distintas da comunicação, como a filosofia ou as próprias ciências sociais.

Esta comunicação proposta, ao mesmo tempo, como razão transcendental de uma sociedade ideal ou como objeto instrumental de uma ação social faz com que a ciência da comunicação se manifeste como opaca pois passa a estudar as relações sociais que, através dela, devem atingir um ideal pragmático da ação capaz de organizar o social ou de manipular o homem e sua consciência.

Mas seria essa opacidade que se esconderia na dimensão classificatória da comunicação como ciência social aplicada?

Enquanto ciência social aplicada, fica claro o caráter instrumental da comunicação, mas sobretudo coloca-a e à ciência que dela se ocupa, na incômoda posição de postular o que deve ser o saudável nas relações sociais ou aquilo que deve ser o adequado papel da comunicação, exorcizando-se todas as possibilidades que a tecnologia da informação oferece para manipular as consciências através da imagem persuasiva e norteadora de valores e comportamentos .

Postular o saudável ou o adequado como ideal de ação, faz com que a comunicação assuma a sociedade e as relações humanas como um território homogêneo e sem história, determinado nas suas resoluções como um mito a ser conservado. Essa pseudociência é um instrumento e não possibilita enfrentar a multiplicidade das relações sociais investidas em toda comunicação. Isso caracteriza um limite científico e, sobretudo, banaliza a sociedade e seus complexos movimentos que supõem descontroles, porque submissos à experiência individual e coletiva que se diversifica na mesma medida em que a mudança econômica, cultural e tecnológica coloca em atrito o local situado e o global planetário.

Porém, se assim não for e se a comunicação não é um desideratum otimista da ação social e também não é um instrumento persuasivo da consciência, a dúvida nos remete à pergunta necessária: qual é o objeto da comunicação enquanto ciência?

3. Comunicação como leitura do mundo

As respostas a estas questões se confundem com duas outras perguntas: o que é a comunicação ou para que serve? Para produzir uma teoria da sua identidade ou da sua funcionalidade, não raro, a comunicação se apropria de teorias de outras áreas sociais adaptando-as àquelas constantes da sua ação social ou persuasiva. Nessas adaptações, a comunicação tem seu objeto de estudo banalizado porque não o enfrenta na sua desordem e complexidade, ou seja, não o enfrenta enquanto campo que se estende e distende em várias direções que vão das relações comunicativas às características de vínculos mediados por veículos midiáticos que, com suas naturezas tecnológicas, acabam por interferir na própria relação comunicataiva . As relações comunicativas vão do diálogo intersubjetivo face a face (Thompson.2002) às relações intersubjetivas, mas mediadas por normas, regras ou leis de âmbito coletivo e institucional, particular ou público. Os vínculos comunicativos referem-se às relações mediadas por recursos tecnológicos e veículos lineares ou digitais que, na distância física ou virtual, geram ambientes comunicativos bios midiáticos (Sodré. 2002:234) ou infosemióticos (Machado.2002:226). No primeiro caso, como ambiente multisenssorial e, no segundo, como sistemas híbridos da cultura e propícios, nos dois casos, à semiose, à interação e à interface dos meios e veículos. Nos dois casos, surpreendemos uma estreita complementaridade entre comunicação e semiótica integradas em diálogo que surge como matriz do próprio processo de semiose como produção de sentidos e interpretações que sustentam relações e vínculos comunicativos. Portanto, se sem semiose não há semiótica, sem diálogo e interação não há comunicação e, em conseqüência, sem semiótica não há comunicação e, sobretudo, cognição comunicativa através dos signos que a sustentam.

Nas representações e signos, está o objeto da ciência da comunicação, porém, esse objeto surge cientificamente camuflado porque é da natureza deles certa indefinição e vagueza.(Tiercelin, 1993 e Silveira, 2001: 203 ) Sob o impacto das tecnologias das mídias, as representações que estruturam os vínculos comunicativos se naturalizam e perdem sua dimensão e definição sígnicas e não se deixam ler. Surge uma espécie de anestesia perceptiva que decorre da profusão midiática e, sobretudo, da sua reiteração que se intensifica na medida em que passamos das relações para os vínculos comunicativos, nesse caso, a imagem constitui exemplo marcante. Em ambientes midiáticos, as imagens se expandem em gestos, movimentos, sons, ambientação ou verbalização e ultrapassam a visualidade sensível para atingir uma dimensão tecnológica que vai do eletrônico ao digital e é capaz de introduzir signos cada vez mais indefinidos. São, em geral, signos não lineares, hipermidiáticos e, como próteses, estendem o espaço, o tempo e o próprio homem ampliando planetariamente a possibilidade da relação comunicativa. Nessa patologia, a imagem estática ou em movimento constitui, através da sedução visual que caracteriza os recursos tecnológicos da sua produção, o vínculo comunicativo mais atraente enquanto domínio científico; porém, não raro, os estudos desse objeto se limitam a descrever o aparato sedutor da imagem e, numa dimensão apocalíptica, vaticinar sobre as consequências sociais de uma cultura ensimesmada na profusão daquela visualidade. Está claro que esses estudos são tão mais convincentes quanto melhor for o desempenho retórico do verbal utilizado naquelas descrições, mas esses exercícios ficam aquém de um processo científico.

Desse modo e para o desenvolvimento do seu processo científico, a comunicação precisa contar com a leitura capaz de romper aquela anestesia midiática e romper ou desmistificar a opacidade que as tecnologias projetaram sobre os vínculos comunicativos e, sobretudo, sobre as suas representações. Ou seja, é necessário ler através dos vínculos e veículos que naturalizam as relações comunicativas tornando-as insignificantes e opacas.

Para o exercício dessa leitura, a comunicação necessita de uma dimensão semiótica que supere a exegese do seu próprio arsenal teórico e se faça operativa. Ou seja, muito além de oferecer subsídios que fundamentem uma Teoria da Comunicação (Machado.2002), a semiótica revela-se como leitura das representações e da sua lógica. Nela, é possível perceber como as representações constituem mediação das relações sociais que falam através de signos e códigos e, sobretudo, daquela lógica que estrutura e organiza suas manifestações fenomênicas e cotidianas.

Desse modo, é possível entender como as relações sociais, situadas histórica e culturalmente no mundo, encontram uma forma sígnica e, através dela, apresentam sua própria constituição e realidade. Assim sendo, as relações comunicativas, midiáticas ou não, lineares ou digitais só poderão ser estudadas, se observarem a própria forma, aparência e qualidade das representações que constituem o indispensável objeto de uma Ciência da Comunicação. Logo, o necessário e perseguido acordo de opiniões que sela a propriedade de uma área científica é, no caso da comunicação, um acordo que não pode prescindir da manifestação sígnica e da sua lógica em diálogo. Ou seja, apenas como uma contracomunicação, aquele acordo poderá ser interpretado como um epistemocentrismo ou como um a priori epistemológico, característicos de uma ciência hegemônica e monologante.

Desse modo, a leitura como operação científica de observação e de comparação entre aparências representativas das relações sociais interativas nos leva a pensar sobre e a resgatar a afirmação de Elisabeth Stengers(1995:102)

"l' invention du pouvoir de conférer aux choses le pouvoir de conférer à l' expérimentateur le pouvoir de parler em leur nom."

Na realidade, adquirir forma representativa para aparecer constitui, para as interações comunicativas, adquirir dimensão de acontecimento científico e conferir à ciência que as tem como objeto de estudo o poder de falar em lugar delas, mas apenas na medida em que for capaz de revelar e discriminar aquela aparência. Desse modo, as representações adquirem força cognitiva, ainda que e enquanto acontecimento, as aparências representativas assumam uma ontologia conjectural visto que, no processo interativo, está sempre presente o caráter de alteridade próprio a todos os processos comunicativos.

Através da leitura semiótica, o cientista da comunicação pode passar do âmbito fenomenológico dos processos representativos para uma esfera propriamente interpretativa onde a experiência interativa supera sua opacidade para revelar sua semiose e seus interpretantes.

A essa altura, a semiótica se revela como um momento imprescindível à comunicação enquanto ciência, porém, não se trata de um método que a priori se aplique aos processos comunicativos, ao contrário, a semiótica constitui um modo de enfrentar as relações e vínculos comunicativos pela iluminação dos seus processos representativos através de signos.

Através da semiótica, a ciência da comunicação encontra não apenas uma fundamentação teórica,( Machado, 2002) mas sobretudo, a definição do seu objeto e um modo de enfrentar a manifestação comunicativa no mundo. Porém, nos dois casos, surpreende-se uma grande distância entre as relações comunicativas como tema descritivo de manifestações sociais e culturais das mídias e o objeto científico que se constitui através da própria maneira como se apresenta ao cientista e lhe permite um lógico percurso cognitivo. O cientista da comunicação não pode prescindir desse olhar semiótico se quiser proceder à síntese científica dos processos comunicativos mais ou menos tecnológicos, mas de qualquer modo e cada vez mais ambíguos e opacos no caráter representativo que os distingue e que lhes confere distinção e significado.

A semiótica permite à comunicação identificar-se enquanto estrutura científica, porém como não é uma matriz de apreensão ou explicação do objeto, mas uma lógica que ensina a ver as diversas manifestações dele, a comunicação enquanto uma semiótica se submete às próprias contingências da representação e impõe-se operar com uma estrutura conjectural e hipotética daquelas representações que, em contínua mudança, adere à própria dinâmica da interação comunicativa enquanto objeto científico.

Porém, a indeterminação e o movimento do objeto fazem com que a própria atividade científica se ressinta de certa instabilidade e ambigüidade, ou seja, o indispensável acordo de opiniões que ampara a teoria e assegura ao cientista o pertencer a uma comunidade apresenta-se sempre frágil e necessita constantemente rever suas estruturas epistemológicas. Aí está a indefinição da comunicação como área científica. Exige do cientista estar consciente de que aderir a uma comunicação semiótica consiste em um modo eficaz de superar a opacidade representativa que a própria tecnologia da informação tem determinado a todas as interações comunicativas mas exige, também, reconhecer que entre a comunicação e a semiótica há o mundo vago e indeterminado das representações. Propõe-se reconhecer que entre a comunicação e a semiótica há um rito de passagem que sugere ser necessário superar a objetividade para se aproximar de uma ciência quase possível, incerta, mas real.

Referências Bibliográficas

HABERMAS, Jurgen- La téchnique et la science comme Idéologie- Paris, Gallimard, 1973

_____Théorie de l' Agir Communicationnel - Paris , Fayard, 1987

KUHN,Thomas - A Estrutura das Revoluções Científicas - São Paulo, Perspectiva,1975

MACHADO, Irene - "Semiótica como Teoria da Comunicação" em Tensões e Objetos da Pesquisa em Comunicação - Porto Alegre, Sulina, 2002

MATTELART, Armand - Michelle - História das Teorias da Comunicação - São Paulo, Loyola, 1999

POPPER, Karl - A Lógica da Pesquisa Científica - São Paulo, Cultrix, 1999

SILVEIRA, Lauro Frederico Barbosa da - " A comunicação de um ponto de vista pragmaticista " em Cognitio 2 , São Paulo, Educ-Angra, 2001

SODRÉ, Muniz - Antropológica do Espelho - Paris, Vozes, 2002

STENGERS, Isabelle - L' Ivention des Sciences Modernes - Paris, Flammarion, 1995

THOMPSON, John - A Mídia e a Modernidade. Uma Teoria Social da Mídia- Petrópolis, Vozes, 2002

TIERCELIN, Claudine - La Pensée-Sign études sur C.S. Peirce. Nîmes, Jacqueline Chambon, 1993 apud Silveira 2001

VATTIMO, Gianni - A Sociedade Transparente- Lisboa, Relógio d'Água, 1992

Lucrécia D'Alessio Ferrara é Professora Doutora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC/SP.

Fonte: GHREBH - http://revista.cisc.org.br