Tom Coelho
Domingo, 24 de Agosto de 2008
“Eu sou eu mais as minhas circunstâncias.”
(José Ortega y Gasset)
Um dia você apanha um velho álbum de fotografias e começa a revisitar seu
passado. Entre as imagens registradas nas fotos e aquelas gravadas em sua mente,
passa diante de si o filme de sua vida.
O álbum dos primeiros anos lembra boneca ou carrinho de rolimã; casinha com
comida de mentirinha ou pipa voando na amplidão; dente-de-leite caindo e sendo
arremessado por sobre o telhado; bola de futebol e de gude, pião e corrida de
pega-pega. Videogames não entram aqui porque são símbolo de outra geração que,
por enquanto, não está interessada em ler artigos como este...
O álbum de formatura remete ao primeiro beijo, aos bailes de salão, à descoberta
da malícia, ao vestibular, às festas e festivais, às noites em claro para
estudar – e às noites no escuro para namorar. Seios que crescem, barba que
surge, cabelos que encompridam e que caem. Vozes finas que se tornam graves,
faces pálidas que enrubescem. Inocência que se perde porque se pede, porque se
permite.
Quando olhamos para trás, seja para nossa história pessoal, seja para a história
da humanidade, temos a nítida impressão de que tudo transcorreu com absoluta
linearidade e harmoniosa. Tudo parece ter acontecido como que seguindo um
roteiro criteriosamente escrito. Assim foi porque assim tinha que ser.
Todavia, quando olhamos para nosso presente, o caos parece imperar. Não há
aquela linearidade, mas apenas sobressaltos. Fosse possível fotografar o momento
e teríamos algo similar às curvas de um eletrocardiograma. Dificuldades,
adversidades, angústias. Intolerância, desamor, depressão. Quando a linha é
reta, você sabe para onde ir; quando oscila, você não sabe onde vai dar...
Vivemos a Era Industrial, inaugurada por James Watt com sua máquina a vapor.
E nossa vida foi governada com olhos voltados para o produto. Importava a coisa
em si, a ponto de certo Jean-Baptiste Say declarar que “toda oferta cria sua
própria demanda”.
Depois, veio a Era Pós-Industrial, quando esta equação se inverteu. Do produto,
o foco passou a ser o mercado. Descobriram que as pessoas tinham desejos,
preferências e capacidade de escolher.
Não demorou muito para que no início dos anos 1990 surgisse uma estrada
pavimentada na palavra digitalizada, capaz de interligar o mundo. Assim a
Internet inaugurou a Era da Informação, universalizando a comunicação, rompendo
barreiras e fronteiras.
Mas não são dados ou informações, máquinas e tecnologia, que fazem a diferença.
São pessoas. E mais do que isso, relacionamentos. Você possivelmente namora,
casou-se ou vai se unir a alguém que conheceu em seus círculos de amizade.
Provavelmente começou a fumar por influência de um colega. Torce pelo mesmo time
que um de seus pais. Freqüenta academias ou clubes por indicação de alguém.
Comparece à igreja a convite de um de seus pares. Trabalha numa empresa ou
mudará de emprego por recomendação de um conhecido. Bem-vindo à Era da
Integração.
Vai-se quase um século que o filósofo espanhol Ortega y Gasset presenteou-nos
com a frase que prefacia este texto. “Eu sou eu” porque sou, antes de tudo,
essência. E uno, único, indivisível. Posso ser copiado, imitado, mas não
duplicado em mente e alma. Sou o resultado de meus pais, meus avós, meus
ancestrais, todos vivendo dentro de mim e ao mesmo tempo agora.
Sou também fruto das “circunstâncias”, do imponderável, do ambiente. Das pessoas
que me cercam, das com quem me relaciono, das que me dão ouvidos e das que me
dão palavras. Daquelas que ao me encontrarem levam um pouco de mim e deixam um
pouco de si. Que me depuram, que me lapidam, que me transformam. Mas é certo que
são “minhas” circunstâncias, posto que posso elegê-las.
Não sei quais os sonhos mais recônditos que habitam seu imaginário. Podem ser
sonhos simples como o orvalho da manhã ou complexos como grandes edificações.
Talvez nem você mesmo saiba. Mas é certo que há um prazer imenso em sonhar,
postular e realizar.
Toda virada de ano é especial porque industrializa a esperança, diria Drummond.
Há uma magia no ar que nos torna a todos grandes planejadores. Aprendemos num
átimo que metas se constroem com papel, lápis e imaginação. É um período tão
intenso que penso que deveríamos criar o calendário de seis meses, abolindo o
gregoriano. Assim teríamos duas chances para recomeçar.
E, ao planejar, lembre-se não apenas do que deseja ter, não apenas de onde
pretende estar, não apenas o que anseia conquistar, mas fundamentalmente, com
quem, através de quem e ao lado de quem espera relacionamentos cultivar.
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Jerônimo Mendes
Segunda, 4 de Agosto de 2008
Existe uma grande diferença entre princípios, valores e virtudes embora sua efetividade seja válida apenas quando os conceitos estão alinhados. No mundo corporativo em geral, noto que muitos profissionais são equivocados com relação aos conceitos e, apesar de defenderem o significado de um ou outro, a prática se revela diferente.
Princípios são preceitos, leis ou pressupostos considerados universais que definem as regras pela qual uma sociedade civilizada deve se orientar. Em qualquer lugar do mundo, princípios são incontestáveis, pois, quando adotados não oferecem resistência alguma. Entende-se que a adoção desses princípios está em consonância com o pensamento da sociedade e vale tanto para a elaboração da constituição de um país quanto para acordos políticos entre as nações ou estatutos de condomínio. Vale no âmbito pessoal e profissional.
Amor, felicidade, liberdade, paz e plenitude são exemplos de princípios considerados universais. Como cidadãos - pessoas e profissionais -, esses princípios fazem parte da nossa existência e durante uma vida estaremos lutando para torná-los inabaláveis. Temos direito a todos eles, contudo, por razões diversas, eles não surgem de graça. A base dos nossos princípios é construída no seio da família e, em muitos casos, eles se perdem no meio do caminho.
De maneira geral, os princípios regem a nossa existência e são comuns a todos os povos, culturas, eras e religiões, queiramos ou não. Quem age diferente ou em desacordo com os princípios universais acaba sendo punido pela sociedade e sofre todas as conseqüências. São as escolhas que fazemos com base em valores equivocados, não em princípios.
Valores são normas ou padrões sociais geralmente aceitos ou mantidos por determinado indivíduo, classe ou sociedade, portanto, em geral, dependem basicamente da cultura relacionada com o ambiente onde estamos inseridos. É comum existir certa confusão entre valores e princípios, todavia, os conceitos e as aplicações são diferentes.
Diferente dos princípios, os valores são pessoais, subjetivos e, acima de tudo, contestáveis. O que vale para você não vale necessariamente para os demais colegas de trabalho. Sua aplicação pode ou não ser ética e depende muito do caráter ou da personalidade da pessoa que os adota.
Pessoas de origem humilde definem valores de maneira diferente das pessoas de origem mais abastada. De um lado, a escassez pode gerar a idéia de que dinheiro não traz felicidade, portanto, mesmo sem dinheiro, é possível ser feliz utilizando-se valores como amizade, por exemplo. Do outro, o apego ao dinheiro e a convivência harmoniosa com o conforto pode gerar a idéia de que sem dinheiro não é possível ser feliz, ou seja, o dinheiro traz felicidade, amizade, conforto e, se houver mais dinheiro do que o necessário, valores como filantropia e voluntariado podem ser praticados.
Essa comparação não define o certo e o errado. Ela apenas levanta uma questão interessante sobre o conceito de valores e depende do ponto de vista de cada cultura ou de cada pessoa, em particular. Na prática, é muito mais simples ater-se aos valores do que aos princípios, pois este último exige muito de nós. Os valores completamente equivocados da nossa sociedade - dinheiro, sucesso, luxo e riqueza - estão na ordem do dia, infelizmente. Todos os dias somos convidados a negligenciar os princípios e adotar os valores ditados pela sociedade.
Virtudes, segundo o Aurélio, são disposições constantes do espírito, as quais, por um esforço da vontade, inclinam à prática do bem. Aristóteles afirmava que há duas espécies de virtudes: a intelectual e a moral. A primeira deve, em grande parte, sua geração e crescimento ao ensino, e por isso requer experiência e tempo; ao passo que a virtude moral é adquirida com o resultado do hábito.
Segundo Aristóteles, nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza, visto que nada que existe por natureza pode ser alterado pela força do hábito, portanto, virtudes nada mais são do que hábitos profundamente arraigados que se originam do meio onde somos criados e condicionados através de exemplos e comportamentos semelhantes.
Uma pessoa pode ter valores e não ter princípios. Hitler, por exemplo, conhecia os princípios, mas preferiu ignorá-los e adotar valores como a supremacia da raça ariana, a aniquilação da oposição e a dominação pela força. Significa que também não dispunha de virtudes, pois as virtudes são decorrentes dos princípios e o seu legado foi um dos mais nefastos da história. Sua ambição desmedida o tornou obcecado por valores que contrastam com os princípios universais.
Diferente de Hitler, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e Mahatma Gandhi tinham princípios, valores e virtudes integralmente alinhados com a sua concepção de vida. Todos lutavam por causas nobres e tinham um ponto comum: a dignidade humana. Enquanto Hitler, Milosevic e Karadzic entraram para o rol das figuras mais odiadas da humanidade, Madre Teresa, Irmã Dulce da Bahia e Gandhi são personalidades singulares que inspiram exemplos para a humanidade.
Existem pessoas que nunca seguiram princípio algum e, apesar de tudo, continuam enriquecendo, fazendo sucesso na televisão, conquistando cargos importantes nas empresas e assumindo papéis relevantes na sociedade. Entretanto, riqueza material não é a única medida de sucesso. Avalie, por si mesmo, quais os exemplos deixados por elas, a sua contribuição para o mundo e o seu triste legado para os descendentes.
No mundo corporativo não é diferente. Embora a convivência seja, por vezes, insuportável, deparamo-nos com profissionais que atropelam os princípios, como se isso fosse algo natural, um meio de sobrevivência, e adotam valores que nada tem a ver com duas grandes necessidades corporativas: a convivência pacífica e o espírito de equipe. Nesse caso, virtude é uma palavra que não faz parte do seu vocabulário e, apesar da falta de escrúpulo, leva tempo para destituí-los do poder.
Valores e virtudes baseados em princípios universais são inegociáveis e, assim como a ética e a lealdade, ou você tem, ou não tem. Entretanto, conceitos como liberdade, felicidade ou riqueza não podem ser definidos com exatidão. Cada pessoa tem recordações, experiências, imagens internas e sentimentos que dão um sentido especial e particular a esses conceitos.
O importante é que você não perca de vista esses conceitos e tenha em mente que a sua contribuição, no universo pessoal e profissional, depende da aplicação mais próxima possível do senso de justiça. E a justiça é uma virtude tão difícil, e tão negligenciada, que a própria justiça sente dificuldades em aplicá-la, portanto, lute pelos princípios que os valores e as virtudes fluirão naturalmente. O que vale em casa vale no trabalho. Não existe paz de espírito nem crescimento interior sem o triunfo dos princípios. Pense nisso e seja feliz!
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Sérgio Dal Sasso
Segunda, 28 de Julho de 2008
1- O que é networking? Networking se confunde com marketing pessoal? "Networking" no mundo atual e competitivo se resume numa única frase: É o exercício da necessidade de se fazer competente e percebido nos meios que atuamos. Vejo o marketing pessoal como um adicional que envolve a arte do saber se relacionar, pois a imagem e qualidade no se comunicar (verbalização e construção da lógica nos contatos de aproximação) podem gerar pelo marketing pessoal um diferencial que alimente o sucesso nas relações.
2- Por que fazer networking? Já houve um tempo aonde podíamos se dedicar mais as nossas atividades técnicas, aonde a formação e o conhecimento eram os fatores principais de procura e garantia de bons contatos. No mundo atual, pela própria existência de grandes disponibilidades de potencial humano em todos os segmentos... Deter o conhecimento já não é garantia de resultados. Em todas as atividades temos que sair das "zonas do conforto" pela procura dos mercados, das relações, e dos meios de suporte e visibilidade ao que nos propomos. Quanto aos diplomas e nossa sabedoria, que garantem a potencialidade do exercício das funções, podem até serem esquecidos nas gavetas, no caso de não conseguirmos "plantar bases" que façam com que as pessoas percebam nossas existências.
3- Como se constrói um bom networking? A primeira barreira é a quebra dos paradigmas que nos impedem a evolução do ser expositivo, do saber se comunicar, do se mostrar interessante a ponto de conseguir criar vínculos. Num processo natural é preciso entender que sonhos exigem mudanças de hábitos e muitas vezes quebras dos medos, dos fatores que nos impedem de sermos pessoas que de fato integrem visões e percepções com atitudes, ações e resultados.
Nosso "networking" se inicia quando iniciamos os passos para cultivar pessoas, ligando-as a um processo seletivo pela afinidade. Sua profissão acontece quando o foco do que se pretende estiver ligado a um plano seletivo de busca capaz de gerar quantidade com qualidade. Toda perfeição e resultados nesse sentido vêm da pratica, do exercício contínuo do usar, traduzindo do esforço algo a ser incluído dentro das nossas qualidades de forma natural e espontânea.
4- Nos dias atuais, um bom networking é essencial para o profissional alavancar a carreira? Sem dúvida 100% necessário, pois o isolamento e a ausência de um comportamento pró-ativo serão sempre eliminatórios no mundo aonde cada vez mais temos que adicionar valores ao que já somos.
5- Se possível, algumas dicas de como usar seu networking e não confundí-lo com relacionamento de amizade. - Bons contatos não são só determinados por pessoas iguais em afinidades, e sim pelo enriquecimento da nossa capacidade, para poder satisfazer aos grupos heterogêneos com os quais vamos ter que conviver.
- Saber lidar com um "Bom dia Senhor", tanto quanto, com um "Fala Cara... ta na Boa" depende das aptidões que adquirimos pela evolução natural e espontânea com terceiros, para somar, ampliar e complementar ao que somos e pretendemos ser.
- A Internet contribui hoje para trazer mais possibilidades de contatos, mas seu uso para um bom "Networking" tem que estar incluído de foco e busca adequada dos grupos e segmentos que preiteamos para nossas inclusões. "É preciso ser participativo em fóruns de discussão e canalizando pessoas interessantes para perto de você. Só assim é possível construir um diferencial competitivo para oportunidades futuras de carreiras".
- Na arte do contato, iniciamos, desenvolvemos, decepcionamos e ficamos decepcionados, surpreendemos e somos surpreendidos, até que as conquistas, sempre em processo de reciclagem pelo entra e sai, gerem fatores de dependência mutua e necessidade de compartilhamento, para adição aos processos de comprometimento e cumplicidade dos grupos e seus interesses.
6 - Fique à vontade para acrescentar o que julgar necessário. Mais do que ser um bom sujeito ou um profissional capaz, se de fato somos é porque temos apoio e aval daqueles que nos envolvemos, pois longe de tapinhas nas costas e de sorrisos do tipo "comercial de pasta dental", nosso grau de liderança e conquistas tem a ver com os alicerces de sustentação: pelas aprovações, troca de valores e aceitabilidade.
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Tom Coelho
Quarta, 14 de Maio de 2008
"Tão grande é o defeito de confiar em todos,
como o de não confiar em ninguém."
(Sêneca)
Recordo-me de um tempo, em minha tenra infância, em que me dirigia até um
armazém na esquina de casa, a pedido de minha mãe, para buscar pão e leite. Não
necessitava levar dinheiro ou um bilhete assinado. Bastava minha presença para
trazer o que fosse preciso. O acerto de contas era assunto a ser tratado
posteriormente. Coisa de adultos.
Quando chegava o verão, eu podia inclusive dar-me ao luxo de passar pelo mesmo
armazém e apanhar um refrescante sorvete de palito. Claro que resguardados
certos limites - levar o time de futebol para compartilhar deste privilégio era
atitude passível de severa punição: a perda da confiança de meus pais.
O dono do armazém consentia com este procedimento porque tinha certeza de que
meus pais pagariam a conta. Analogamente, meus pais acreditavam que o valor
apresentado como despesa seria justo e correto, correspondendo exatamente ao que
fora consumido.
Cresci compreendendo que aquela situação representava uma espécie de contrato
social, calcado na honra e na palavra, ao que se convencionou chamar de "fio
de bigode". E percebi que aquilo fazia parte de minha formação, de minha cultura
e de meu caráter. De tal forma que o empréstimo, entre colegas, de livros,
discos de vinil (sim, CD neste tempo eram apenas a terceira e quarta letras do
alfabeto) e até pequenas importâncias em dinheiro, era selado pelo mero
compromisso pessoal da devolução em perfeito estado de conservação.
Anos mais tarde uma oportunidade de trabalho bateu à minha porta. O destino era
uma pequena cidade que contava, na ocasião, pouco mais de 80 mil habitantes.
Aconchegante, bem estruturada, mas uma típica cidade interiorana.
Lá fiz amizade com Sérgio Casagrande, um carioca já radicado no local há um par
de anos, que sentenciou o que me aguardava. Disse-me ele: "Aqui, você é mocinho
até que se prove o contrário. Nos grandes centros, de onde viemos, é o oposto,
ou seja, somos bandidos até que provemos o contrário". Dias depois pude
vivenciar aquelas palavras. E lembrei-me daquele armazém de minha infância.
As duas últimas décadas nos legaram abundância de recursos, tecnologia sem
precedentes, capacidade de comunicação quase ilimitada. Migramos do racionamento
para o delivery, do mundo analógico para o digital, do telex para a
videoconferência. E do "fio de bigode" para o papel assinado.
Casamentos demandam acordos pré-nupciais, instituições de ensino firmam
contratos de prestação de serviços, reuniões são registradas em livros de ata.
Advogados grassam aos milhares. Uns, para elaborar contratos; outros, para
contestá-los. Sem falar do magistrado que delibera qual dos dois será agraciado
com a razão.
O contrato social verbal está extinto. Vigoram apenas os contratos políticos,
econômicos e até ecumênicos. Um mundo de contratos, impressos em cinco vias, com
duas testemunhas, registrados e com firmas reconhecidas. Um mundo burocrático e
cartorial onde uma pessoa conhecida por escrivão, dotada de uma concessão
denominada fé pública, tem o poder discricionário de dizer se eu sou mesmo a
pessoa que declaro ser.
De tanto ouvir a assertiva "quem paga mal, paga duas vezes", passei a andar com
um talão de recibo em minha pasta. E arquivo comprovantes de pagamentos durante
meses.
De tanto prestar serviços com remuneração vinculada ao êxito, que quase sempre
obtenho, sendo desdenhado pelo cliente no recebimento de meus honorários - o
mesmo cliente que outrora, em dificuldades, faria qualquer coisa para reverter
sua situação - passei a solicitar-lhes uma assinatura ao final de cláusulas e
parágrafos. Ainda estou aprendendo a fazer isso, posto que contrário à minha
natureza. Mas estou aprendendo...
Hoje, quando entro em uma padaria e me deparo com um pequeno aviso anunciando
"Fiado só amanhã", desperto para este novo mundo. Compreendo que a palavra
"fiado" advém de "confiado", e que confiança é algo que antes nascia com a
gente, depois passou a ser virtude difícil de ser conquistada e, agora, corre o
risco de habitar apenas os dicionários e romances dos séculos passados.
Acho que foi por conta disso que resolvi deixar o bigode crescer e me mudei para
o interior. Só para ser tratado como mocinho e poder, por mais algum tempo,
confiar e ser confiado.
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Wagner Campos
Segunda, 14 de Abril de 2008
Durante o século XVIII surgiram vários contos de fadas envolvendo animais. Entre
centenas de histórias, criou-se um conto representado por três porquinhos. Em
1933 a Disney reformulou o conto e tornou-o famoso em todo mundo, batizando cada
um dos porquinhos com um nome: Prático, Heitor e Cícero.
Conforme relata o conto, um belo dia os três porquinhos resolveram sair de onde
moravam e cada um combinou construir sua casa. Cícero era o porquinho menos
esforçado e relaxado, então construiu uma casinha de palha. Heitor queria um
pouco mais de conforto e aconchego e construiu uma casa de madeira. Já o
Prático, queria uma casa confortável, segura, resistente, durável e que
refletisse sua personalidade. O resto da história você já sabe. Vem o lobo mau,
assopra a casinha de palha e a derruba; o porquinho Cícero corre para a casa de
madeira de seu irmão Heitor, o lobo vai atrás, assopra-a e a destrói e os
porquinhos fogem para a casa de pedra do Prático. O lobo assopra, assopra,
assopra e não derruba a casa. Tenta entrar pela lareira e cai em um caldeirão de
água quente, fugindo assustado enquanto os porquinhos comemoram a vitória.
Em todas corporações podemos encontrar colaboradores que assumem papéis de
personagens semelhantes aos vividos pelos três porquinhos. Há aquele com o
perfil do porquinho Cícero, que ao resolver iniciar suas atividades não as
realiza com paixão e determinação, e muito menos as finaliza. Seu maior
interesse é em cumprir a carga horária, e não apresentar resultados ou
contribuir com estratégias criativas para a empresa. Encontra-se
constantemente tomando cafezinhos, batendo papo, fumando, navegando na Internet
com interesses particulares e quando questionado, apresenta seus relatórios
incompatíveis com a expectativa para sua função.
Quando percebe que sua segurança profissional torna-se abalada, corre em
direção de alguém que possa auxiliar para que complete sua atividade. Não em
direção de quem necessariamente o oriente, mas de quem literalmente faça o que
ele deveria ter feito. Vai atrás de alguém com o perfil do porquinho Heitor,
colaborador que realmente se dedica ao realizar suas atividades e cumpre
exatamente aquilo que foi orientado a fazer. Como um bom executor, é receptivo e
prestativo, ajudando muitas vezes os colaboradores com perfil do porquinho
Cícero, buscando inclusive encobrir a falha ou má vontade dele em razão da
amizade existente.
Para a sorte das corporações existem os colaboradores que vão além do mínimo ou
necessário. São aqueles que desenvolvem projetos, apresentam estratégias, buscam
melhorias constantes que possam contribuir para o resultado da empresa e também
de todos que atuam conjuntamente, muito além de apenas desempenharem atividades
para as quais foram contratados. Estes colaboradores são aqueles que possuem o
perfil do porquinho Prático. Não querem apenas construir um abrigo ou simples
casa. Não querem fazer igual ou o necessário, querem apresentar mais trabalho e
melhor, em menos tempo, com maior duração, com resultados expressivos e em
benefício de todos.
E porque os profissionais com as características dos porquinhos Cícero e Heitor
iriam solicitar auxílio ao profissional com o perfil do porquinho Prático? Pelo
mesmo motivo da história. Por causa do lobo mau! O lobo mau da concorrência,
da necessidade de redução de custos e de tempo, da exigência de inovação, do
desenvolvimento de novos produtos, novas campanhas e da melhoria da
competitividade.
Este lobo mau mercadológico vive faminto e não perdoa. Porquinho que não inova
vira lombo defumado no café da manhã. Porquinho que não reduz seus custos fica
com sua estrutura pesada, não consegue fugir e vira porquinho assado no almoço.
Porquinho que não melhora sua competitividade, não desenvolve campanhas e não se
demonstra preparado fica sem conseguir se diferenciar de outro e vira ensopado
no jantar.
Dificuldades à parte, somente com muito esforço, determinação e paixão pelo que
se faz, juntamente com muito profissionalismo é que se consegue conquistar mais
espaço e ampliar os horizontes.
Aquele hábito de ficar enrolando ou simplesmente executando o que ordenaram para
se fazer, tornando-se um "pau mandado", não é o melhor caminho e cedo ou tarde,
como na história, a casa cai. Perdoe-me o trocadilho, mas que tal então, ter um
perfil mais "prático"?
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